Assis Medeiros lança "CIPÓ COM SERPENTE", seu sexto disco solo


Em seu novo álbum Assis Medeiros interpreta sonhos, revela segredos do nordeste profundo e traz a pessoa amada., Hamilton Oliveira

Assis Medeiros, compositor-instrumentista, toca sua guitarra, compõe e toda expressividade vem daí, da existência simbiótica entre o músico e seu instrumento. Operário, não se cansa e compõe intensamente há décadas.

Sua discografia abarca gêneros distintos, incluindo trilhas musicais para cinema. E revela uma movimentada jornada criativa, desde o seu primeiro disco demo autoral, em São Luís do Maranhão, até seu presente álbum, a ser lançado em dezembro deste ano de 2021.

Neste novo trabalho, Assis traz 10 canções autorais e foi todo produzido durante a pandemia, e para o qual tocou todos os instrumentos e criou todos os arranjos. “É um disco mais intimista. Foi todo gravado por mim no estúdio que tenho aqui em minha casa, em Brasília”, diz Assis.

O álbum apresenta sua guitarra de um jeito diferente e mostra que se tornou um letrista com recursos inusitados, como no exemplo da canção-título do álbum. Nela, mergulhado em seu universo onírico, todo delírio abstrato surge da concretude da fome. Porém, Assis não fala de uma fome que vivenciou, mas da que sentiu intimamente como cidadão do Nordeste.

Cipó com serpente começa épico para, em seguida, e aos poucos, ir se tornando intimista, recolhido, pessoal. “O que torna sua audição um passeio musical delicioso e sempre surpreendente. Um disco bom de ouvir, do começo ao fim”, recomenda Hamilton Oliveira, parceiro em duas canções do álbum, Flanuer e Bumerangue.

“Cada sopro é revelação”, diz a letra de Veneno de flor, que abre o disco. “Ouça o disco com isso em mente e conhecerá Assis de um jeito que ele mesmo vai ficar incomodado”, provoca Hamilton. Pois o ouvinte poderá chegar tão perto que, em alguns momentos, “vai imaginar que está sentado na mesa de sua cozinha”, garante. E nessa área Medeiros manda muito bem. Exímio cozinheiro, ele sabe exatamente que, numa receita terapêutica, a diferença entre o remédio e o veneno é apenas a de uma pitada a mais, ou a menos.

Sambando, Assis chega com gravidade ao meio do caminho de Cipó com serpente, onde está a Aço do amor. De melodia envolvente, pode ser ouvida em paz ou como uma experiência tormentosa. Quando canta “levante e vá”, não deixa claro que é para levantar e seguir. Pois parece que está dizendo isso deitado em sua cama e vai continuar lá como está, com a respiração pesada. Porém, remetendo à melhor tradição do samba, Assis nos desafia e eleva, sem ser superficialmente leve: “enfrente o mar, invente sempre uma razão para viver, entorte o aço do amor, encontre um veio qualquer”.

O disco traz também canções antigas nunca gravadas, como Onde tudo parecia e a bela e intrigante Pé de moleca, homenagem à cantora Flora Lago, sua filha. Quando Assis a compôs, Flora era apenas uma pequena criança, portanto, o fato da canção ser bela e intrigante como a própria Flora, 20 e poucos anos depois, é pura premonição paterna.

Uma canção especial de sua lavra como letrista, Eira nem beira é, no álbum, um dos exemplos do tipo de exercício artístico que Assis Medeiros se dispôs a realizar nessa produção. Faz uma transposição autoral polêmica para os dias atuais ao se arriscar a escrever em voz feminina, Medeiros aproveita esse mesmo movimento para abdicar de características musicais marcantes quando empunha sua guitarra simbiótica.

O álbum traz ainda três canções em parceria, Flâneur e Bumerangue, ambas com Ana Areias e Hamilton Oliveira, e A cor do lírio, com o poeta Celso Borges, numa ode a outro poeta, Geraldo Urano (1953-2017), e cuja gravação contou com a participações especialíssimas de Lídia Batista, irmã de Geraldo, e do gaitista Pablo Fagundes. A canção é uma parceria póstuma com Urano, pois inclui versos originais do poeta, colhidos sob as estrelas irreverentes, experimentalistas e contestadoras do céu do Cariri.

Cipó com serpente conta com duas participações especiais na canção A cor do lírio, Pablo Fagundes, na gaita, e Lídia Batista (irmã do poeta Geraldo Urano), na leitura de um trecho da letra. Foi mixado e masterizado por Homero Lotito. E o desenho da capa foi feito pela designer Flora Lago, inspirado em foto de Adriana Lago. A curiosidade é que o desenho foi feito à mão livre e sem tirar a caneta do papel.

Este é o sexto disco solo do compos