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Brasília envelhece: idosos já representam 13% da população do DF; especialistas apontam caminhos para envelhecer com autonomia

há 38 minutos
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Brasília está ficando mais velha. No Distrito Federal, 13% da população já é formada por pessoas com 60 anos ou mais, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), elaborado a partir do Censo 2022. Em um território com 2.817.381 habitantes naquele levantamento, o avanço da população idosa ajuda a redesenhar as demandas de saúde, mobilidade, convivência e qualidade de vida.

Outro número ajuda a mostrar a velocidade dessa transformação: o DF possui 68,3 pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 crianças e adolescentes menores de 15 anos. A população com até 14 anos representa 19% dos moradores, enquanto 68% estão na faixa entre 15 e 59 anos.

Os números ganham ainda mais relevância neste 1º de outubro, Dia Nacional da Pessoa Idosa, ao trazerem uma questão que vai além de quantos anos a população está vivendo: como chegar à velhice preservando independência, mobilidade, memória e participação social?

Para a geriatra Dra. Priscila Guerra, envelhecimento saudável não começa aos 60 ou 70 anos. É resultado de cuidados construídos durante toda a vida e que se tornam ainda mais importantes conforme os anos avançam.

“Quando falamos em envelhecer bem, precisamos abandonar a ideia de que basta chegar a uma idade avançada sem uma doença grave. O que buscamos é preservar funcionalidade e autonomia. Isso envolve controlar doenças crônicas, manter uma alimentação adequada, praticar atividade física, preservar vínculos sociais, cuidar do sono, da saúde mental, da audição e da visão e acompanhar mudanças que possam comprometer a independência. A longevidade é uma conquista, mas ela nos coloca diante de um novo desafio: fazer com que os anos adicionais de vida sejam vividos com qualidade”, explica Priscila Guerra.

Músculo também é reserva para a velhice

Em uma população que envelhece, preservar massa muscular deixa de ser uma preocupação associada somente à estética ou ao desempenho esportivo. Força, equilíbrio e mobilidade estão diretamente relacionados à capacidade de realizar tarefas cotidianas de forma independente.

Com o passar dos anos, músculos, tendões, articulações e ossos respondem de maneira diferente aos estímulos. Isso não significa, entretanto, que pessoas mais velhas devam evitar exercícios.

Para o Dr. Fernando Jorge, ortopedista, o sedentarismo pode representar um risco maior do que iniciar uma rotina de exercícios de maneira progressiva e orientada.

“Depois dos 50, preservar massa muscular, força, equilíbrio e saúde óssea deixa de ser apenas uma questão de condicionamento e passa a ser fundamental para a autonomia. A musculação é uma das ferramentas mais importantes nesse processo, porque ajuda a combater a perda de massa muscular associada ao envelhecimento. O erro é achar que, para proteger articulações, coluna e joelhos, a pessoa precisa evitar carga. Os tecidos do corpo se adaptam aos estímulos que recebem: músculos precisam de resistência, ossos precisam de carga e tendões precisam de tensão para permanecer fortes. O cuidado está na progressão. Quem passou anos sedentário não deve voltar tentando reproduzir imediatamente o treino que fazia aos 20 ou 30 anos”, explica Fernando Jorge.

O especialista lembra que, depois de um longo período sem exercícios, disposição e condicionamento cardiovascular podem evoluir mais rapidamente do que tendões, ligamentos e articulações. É justamente nesse descompasso que a pessoa pode se sentir preparada para aumentar a intensidade antes de o restante do organismo estar adaptado.

“Continuar sedentário por medo de se machucar pode ser muito mais prejudicial. O treinamento de força pode ser realizado em diferentes idades, desde que exista avaliação e adaptação à condição de cada pessoa. O objetivo aos 60, 70 ou 80 anos não precisa ser levantar grandes cargas. Pode ser ter força para subir uma escada, levantar de uma cadeira sem ajuda, carregar uma sacola, recuperar o equilíbrio diante de um tropeço e continuar realizando atividades do cotidiano com independência. É isso que transforma força muscular em qualidade de vida”, acrescenta o ortopedista.

Cérebro também precisa de exercício

Autonomia na velhice, no entanto, não depende somente da capacidade de caminhar, levantar ou realizar atividades físicas. Memória, atenção, raciocínio, linguagem e capacidade de tomar decisões também interferem diretamente na independência.

A Thais Bento Lima da Silva, gerontóloga, mestra e doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento pela Faculdade de Medicina da USP, docente e pesquisadora da USP e parceira científica do Método Supera, explica que envelhecer não significa perder a capacidade de aprender ou desenvolver novas habilidades.

“O cérebro continua respondendo a estímulos ao longo da vida. Por isso, uma longevidade saudável também passa por manter curiosidade, aprendizado, interação social e atividades que desafiem diferentes habilidades cognitivas. Fazer sempre as mesmas coisas de maneira automática oferece um estímulo diferente de aprender algo novo, resolver problemas, exercitar memória, atenção e raciocínio ou participar de atividades em grupo. Não se trata apenas de fazer palavras cruzadas ou decorar informações, mas de manter uma vida cognitivamente ativa e diversificada”, explica Thais.

Para a gerontóloga, a aposentadoria e as mudanças de rotina que chegam com a idade também exigem atenção para que não sejam acompanhadas por isolamento e redução progressiva das experiências sociais.

“Convívio social também é parte importante do envelhecimento. Conversar, ensinar, aprender, participar de grupos, manter interesses e estabelecer novos projetos são formas de continuar colocando o cérebro em contato com experiências diferentes. Precisamos combater a ideia de que envelhecer é entrar em uma fase de recolhimento. Uma pessoa pode continuar aprendendo, construindo relações e desenvolvendo habilidades em qualquer idade”, afirma.

Brasília precisa se preparar para uma população mais velha

O envelhecimento do Distrito Federal fica ainda mais evidente quando o cenário atual é comparado ao passado. Em 2010, pessoas com 65 anos ou mais representavam 5% da população do DF. Em 2022, essa participação chegou a 8,8%. No mesmo período, a parcela de crianças e adolescentes de até 14 anos caiu de 23,7% para 19%. O índice de envelhecimento, considerando pessoas com 65 anos ou mais em relação à população com menos de 15 anos, passou de 21 para 46,5.

A transformação significa que Brasília precisará estar cada vez mais preparada para uma população que viverá por mais tempo. E isso envolve desde serviços de saúde e prevenção de quedas até espaços urbanos acessíveis, atividade física, estímulos cognitivos e oportunidades de convivência.

Para Priscila Guerra, essa mudança também exige rever a própria maneira como a sociedade encara a velhice.

“Uma cidade que envelhece precisa pensar em como essas pessoas continuarão vivendo nela. Não basta discutir tratamento de doenças. Precisamos falar de prevenção, acessibilidade, mobilidade, convivência, atividade física, participação social e preservação da independência. O idoso não pode ser visto apenas como alguém que precisa de cuidado. Estamos falando de pessoas que podem continuar trabalhando, aprendendo, se exercitando, construindo relações e participando ativamente da sociedade. O grande objetivo da longevidade é justamente permitir que esses anos a mais sejam vividos com autonomia”, finaliza Dra. Priscila Guerra.


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