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No Dia da Mulher, a dor que ninguém vê (mas que muda tudo)

  • 9 de mar.
  • 2 min de leitura

No Dia Internacional da Mulher, vale acender um holofote sobre um problema de saúde pública que costuma andar no “modo silencioso”: a dor crônica. Ela não aparece em exames como um “X” bem marcado, não usa gesso, não sangra — mas rouba energia, autonomia e presença. E, com uma frequência incômoda, rouba isso mais das mulheres.

Uma curiosidade que deveria constranger qualquer sistema de saúde: estimativas globais apontam que cerca de 1 em cada 5 adultos convive com dor crônica — e que 10% entram nesse grupo a cada ano.  

Isso não é “uma queixa”. É uma epidemia de fundo, do tipo que empurra gente produtiva para o esgotamento sem fazer barulho.

Quando a lente fecha no público feminino, a diferença fica ainda mais nítida. Fibromialgia é o exemplo clássico: em amostras clínicas, mais de 80–90% dos diagnósticos aparecem em mulheres — embora estudos mostrem que parte dessa diferença pode refletir também viés de encaminhamento e subdiagnóstico em homens.  

E não é só fibromialgia. Enxaqueca é outra “assinatura” do problema: depois da puberdade, ela se torna 3 a 4 vezes mais frequente em mulheres.  

A própria OMS chama atenção para a escala: distúrbios de cefaleia atingiram cerca de 3,1 bilhões de pessoas em 2021 e são mais comuns no sexo feminino.  

Mas por que isso acontece?

Aqui entra a parte que quase nunca cabe numa manchete, mas explica muito. Dor crônica não é apenas “dor que demora”. Em muitos casos, é um sistema nervoso que passa a funcionar como um alarme sensível demais: dispara com facilidade, mantém o corpo em estado de alerta, altera sono, humor, tolerância ao estresse e até a forma como o cérebro “filtra” sinais do corpo. E, no caso das mulheres, esse cenário sofre influência de três camadas que se somam:

1. Biologia e hormônios, com variações ao longo do ciclo, gestação, puerpério e transição menopausal, afetando limiar de dor e processos inflamatórios.  

2. Imunologia e sensibilização central, com maior propensão a certas síndromes dolorosas em mulheres.  

3. Psicossocial: dupla ou tripla jornada, carga mental, sono fragmentado, pouco tempo de recuperação — e o corpo cobra isso com juros.

Para mim, como especialista em dor, o ponto mais grave é que o impacto raramente fica restrito ao sintoma.

“A dor crônica na mulher não é apenas um desconforto físico. Ela mexe com produtividade, convívio social e autoestima. Muitas pacientes param de participar de eventos familiares, reduzem atividades profissionais e vão se isolando — não por falta de vontade, mas por falta de combustível.”

E existe um detalhe que irrita pela previsibilidade: o subdiagnóstico e a desvalorização da queixa. Diversas análises discutem como vieses de gênero podem levar a interpretações apressadas (“é emocional”, “é estresse”, “é exagero”), atrasando o tratamento e prolongando sofrimento.  

No Dia da Mulher, o recado é simples e sério: dor persistente não deve virar identidade, nem rotina.

Cuidar da dor feminina é cuidar de algo que sustenta tudo o resto: presença, dignidade, autonomia, família e vida social. E isso não é um “mimo” do sistema — é uma dívida antiga.


Serviço

Clínica IBDOR

709 Sul - Centro Médico Julio Adnet 

Fone:  (61) 98408-4014


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