7/1, Dia do Leitor: 20 livros indispensáveis que você deveria ler
- Rodrigo Carvalho

- há 2 dias
- 10 min de leitura

Em 7 de janeiro é comemorado o Dia do Leitor, data que reforça o poder transformador que a leitura exerce na formação intelectual, emocional e crítica dos indivíduos. Ler amplia repertórios, fortalece a compreensão do mundo e cria oportunidades de conexão com diferentes culturas, épocas e perspectivas.
Segundo Renata Lima, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), cultivar o hábito da leitura desde cedo é uma das escolhas mais potentes para o desenvolvimento ao longo da vida. “Ler é uma forma de construir autonomia porque amplia o repertório simbólico e oferece instrumentos para nomear, organizar e questionar o mundo. É pela linguagem que o pensamento ganha densidade, que a empatia se complexifica e que o sujeito aprende a transitar entre diferentes perspectivas. Quanto mais cedo esse vínculo com a leitura se consolida, maior a possibilidade de formar leitores capazes de sustentar aprendizagens ao longo da vida”, afirma.
Para marcar a celebração, a docente seleciona 20 obras essenciais, brasileiras e estrangeiras, que atravessaram gerações e continuam indispensáveis para quem deseja compreender melhor a literatura e a própria condição humana.
AUTORES BRASILEIROS
A Hora da Estrela (1977)
Uma das obras mais célebres de Clarice Lispector (Ucrânia, 1920 – Rio de Janeiro, 1977), A hora da estrela conta a história da nordestina Macabéa, uma mulher miserável, que mal tem consciência de existir. Depois de perder seu único elo com o mundo, uma velha tia, ela viaja para o Rio, onde aluga um quarto, se emprega como datilógrafa e gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio. Apaixona-se, então, por Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino, que logo a trai com uma colega de trabalho. Desesperada, Macabéa consulta uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso, bem diferente do que a espera.
As Três Marias (1939)
A obra de Rachel de Queiroz (Fortaleza, 1910 – Rio de Janeiro, 2003) conta a história de três amigas inseparáveis, da infância em um colégio de freiras à vida adulta. Maria da Glória dedicou-se à maternidade e à família; Maria José, sempre devota, voltou a morar com a mãe e virou professora; e Maria Augusta, diferente das amigas, determinou-se a construir o próprio caminho: trabalhou como datilógrafa em Fortaleza e, lá, apaixonou-se. As Três Marias retrata o processo de ajustamento ao mundo pelos olhos das meninas e convida o leitor a acompanhá-las desde os medos e as incertezas da juventude até o amadurecimento. Assim, a autora vai mais fundo na perspectiva social e na agudeza da observação psicológica.
Capitães da Areia (1937)
Capitães da Areia é talvez o romance mais influente de Jorge Amado (Itabuna, 1912 – Salvador, 2001). Obra clássica sobre a infância abandonada, conta a história crua e comovente de meninos pobres que moram num trapiche abandonado em Salvador. O livro torna o leitor íntimo dos personagens, cada um deles com suas carências e suas ambições: do líder Pedro Bala ao religioso Pirulito, do ressentido e cruel Sem-Pernas ao aprendiz de cafetão Gato, do sensato Professor ao rústico sertanejo Volta Seca. Com a força envolvente da sua prosa, o autor nos aproxima desses garotos e nos contagia com seu intenso desejo de liberdade.
Grande Sertão: Veredas (1956)
Obra de João Guimarães Rosa (Minas Gerais, 1908 – Rio de Janeiro, 1967), Grande sertão: veredas é um mergulho profundo na alma humana. Neste clássico arrebatador, as paisagens percorridas pelos jagunços ganham uma dimensão universal e profundamente humana. Ao narrar o mundo através dos olhos de Riobaldo, o autor constrói um romance fascinante, que mescla sofrimento, luta, alegria, violência, amor e morte em uma prosa extremamente inventiva – reinventando a língua e elevando o sertão ao contexto da literatura universal, compondo o cenário de uma narrativa lírica e épica, uma lição de luta e valorização do homem.
Iracema (1865)
Obra da fase indianista de José de Alencar (Fortaleza, 1829 – Rio de Janeiro, 1877), Iracema é um texto básico da cultura brasileira, romance que construiu uma representação mítica do Brasil. O livro retrata a expressão nacionalista que estava em voga no século XIX, época em que os escritores buscavam construir o nativo brasileiro sob a ótica do ideal romântico. Assim, Alencar mostra o encontro da natureza, personificada pela índia Iracema, a "virgem dos lábios de mel", com a civilização europeia, representada pelo navegante Martim, resultando no “nascimento do primeiro cearense”. A história do amor dos protagonistas é uma metáfora do encontro entre civilização e cultura autóctone.
Macunaíma (1928)
Macunaíma, de Mário de Andrade (São Paulo, 1893 – São Paulo, 1945), apresenta o herói sem nenhum caráter. O protagonista, que ora é índio negro ora é branco, até hoje é considerado símbolo do brasileiro em vários sentidos: o do malandro esperto, amoral, que sempre consegue o que quer, e o do povo perdido diante de suas múltiplas identidades. Macunaíma foi forjado a partir de lendas indígenas e populares, colagens de histórias, mitos e modos de vida que, nele somados, deram existência a um tipo brasileiro ideal. Um ser mágico, debochado e zombeteiro, que viaja pelo país de Roraima a São Paulo, descendo o rio Araguaia, do Paraná aos pampas, até chegar ao Rio de Janeiro, acompanhado de seus irmãos, Jiguê e Maanape, numa aventura para recuperar seu amuleto perdido: a muiraquitã. A obra surge no contexto da primeira geração do modernismo, que buscava uma identidade nacional, rompendo com os padrões artísticos europeus ao valorizar a cultura popular brasileira.
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
Na obra de Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839 – Rio de Janeiro, 1908), o finado Brás Cubas decide contar sua história por uma ótica bastante inusitada: em vez de começar pelo seu nascimento, sua narrativa inicia-se pelo óbito. Enquanto rememora as experiências que viveu, o defunto-autor narra as suas desventuras e revela as contradições da sociedade brasileira do século XIX, por meio de uma análise aprofundada de seus personagens. Memórias Póstumas de Brás Cubas retrata o período do Brasil Império, especialmente a elite burguesa do Rio de Janeiro, marcada por mudanças sociais e ascensão de novos valores.
Os Sertões (1902)
A partir do trabalho jornalístico de Euclides da Cunha (Rio de Janeiro, 1866 – Rio de Janeiro, 1909) sobre a rebelião de Canudos, surge esta obra sobre o sertão, as injustiças sociais do Brasil e a violência que marcou o País. Ao narrar a violenta e exaustiva repressão sofrida pelo bando de Antônio Conselheiro, o autor narra também a formação do homem sertanejo. Os Sertões denuncia os crimes cometidos por uma sociedade eurocêntrica, violenta, autoritária, desigual e excludente, além de desafiar qualquer resposta fácil para as questões sertanejas.
Quarto de Despejo (1960)
Do diário de Carolina Maria de Jesus (Minas Gerais, 1914 – São Paulo, 1977) surgiu este autêntico exemplo de literatura-verdade. Quarto de Despejo é o retrato do cotidiano triste e cruel de uma mulher que sobrevive como catadora de papel e faz de tudo para espantar a fome e criar seus filhos na favela do Canindé. Em meio a um ambiente de extrema pobreza e desigualdade de classe, de gênero e de raça, o leitor se depara com o duro dia a dia de quem não tem amanhã, mas que ainda assim resiste diante da miséria, da violência e da fome.
Vidas secas (1938)
Vidas secas conta a história de uma família de retirantes que, na planície avermelhada do sertão, enfrenta a seca, a fome, o desamparo e a violência das instituições, em busca de vida nova. Fabiano, sinha Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia caminham dias inteiros, à procura de água, comida e pouso. No trajeto, encontram com figuras essenciais para compreender o contexto histórico e social da obra-prima de Graciliano Ramos (Alagoas, 1892 – Rio de Janeiro, 1953), marco da segunda fase do modernismo, que se tornou registro da identidade de um povo.
AUTORES ESTRANGEIROS
A Casa dos Espíritos (1982)
A Casa dos Espíritos é tanto uma emblemática saga familiar quanto um relato acerca de um período turbulento na história de um país latino-americano indefinido, com uma narrativa instigante que costura passado, presente e futuro de maneira fluida e elegante. As paixões, lutas e segredos da família Trueba abrangem três gerações e um século de transformações violentas, que culminaram em uma crise que leva o patriarca e sua amada neta para lados opostos das barricadas. Em um pano de fundo de revolução e contrarrevolução, a autora Isabel Allende (Peru, 1942) traz à vida uma família cujos laços privados de amor e ódio são mais complexos e duradouros do que as lealdades políticas que os colocam uns contra os outros.
A Metamorfose (1915)
A Metamorfose é a mais célebre novela de Franz Kafka (República Tcheca, 1883 – Áustria, 1924), um mestre da ficção universal, e uma das mais importantes de toda a história da literatura. Sem a menor cerimônia, o texto coloca o leitor diante de um caixeiro-viajante, o homem comum Gregor Samsa, transformado em inseto monstruoso. A partir daí, a história é narrada com um realismo inesperado que associa o inverossímil, absurdo e o senso de humor ao que é trágico, grotesco e cruel na condição humana. Tudo narrado no tom preciso, frio e lógico do autor, capaz de integrar naturalmente o pesadelo ao cotidiano.
A Revolução dos Bichos (1945)
Concebido por um dos mais influentes escritores do século XX, George Orwell (Índia, 1903 – Reino Unido, 1950), A Revolução dos Bichos é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos. A narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. Mais de sessenta anos depois de escrita, a obra se mantém como uma alegoria sobre as fraquezas humanas que levam à corrosão dos grandes projetos de revolução política.
Cem Anos de Solidão (1967)
No clássico romance Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez (Colômbia, 1927 – México, 2014) narra a incrível e triste história dos Buendía - a estirpe de solitários para a qual não será dada “uma segunda oportunidade sobre a terra” - e apresenta o maravilhoso universo da fictícia Macondo, onde se passa o romance. É lá que acompanhamos diversas gerações dessa família, assim como a ascensão e a queda do vilarejo, com seus milagres, fantasias e dramas que representam famílias do mundo inteiro. Uma obra grandiosa e atemporal, sobre a qual é possível construir diversos paralelos com a nossa própria existência.
Dom Quixote (1605)
Em Dom Quixote, Miguel de Cervantes traz elementos que iriam dar início à tradição do romance moderno, como o humor, as digressões e reflexões de toda ordem, a oralidade nas falas e a metalinguagem, e que marcariam o fim da Idade Média na literatura. Paródia das famosas novelas de cavalaria, um gênero muito cultuado na Espanha do início do século XVII, a obra conta a história de um fidalgo que perde o juízo e parte pelo país para lutar em nome da justiça. O Cavaleiro da Triste Figura representa a capacidade de transformação do ser humano em busca de seus ideais, por mais obstinada, infrutífera e patética que essa luta possa parecer.
Ensaio sobre a cegueira (1995)
Ensaio sobre a cegueira, escrito por José Saramago (Portugal, 1922 – Espanha, 2010), é uma verdadeira viagem às trevas da humanidade. Neste clássico moderno da literatura em língua portuguesa, o leitor é dragado para um cenário devastador, onde uma "treva branca" passa a assolar a sociedade, espalhando-se incontrolavelmente. Toda a população deixa de enxergar, exceto por uma mulher, que se passa por cega para acompanhar o marido na quarentena compulsória a que todos foram submetidos. Presos à nova realidade, os cegos se descobrem reduzidos à essência humana.
Frankenstein (1818)
Frankenstein é o clássico gótico que inaugurou a ficção científica, escrito por Mary Shelley (Reino Unido, 1797 – Reino Unido, 1851) quando tinha apenas 18 anos. Conta a história de Victor Frankenstein, um homem obcecado pela criação, que saqueia cemitérios em busca de materiais para construir um novo ser, buscando conquistar a fama dando vida ao inanimado. Mas, quando sua estranha criatura ganha vida, Frankenstein a rejeita. Então, o monstro lança-se com afinco à destruição de seu criador. Frankenstein começa uma dança perturbadora e violenta com sua criação, levando o leitor a indagar quem é o monstro, de fato. O livro conjuga pela primeira vez uma narrativa de ficção com a ideia de ciência e prenuncia várias perguntas sem respostas fáceis, justificando por que sua criatura emblemática se espraia pelo imaginário popular há mais de dois séculos.
O Diário de Anne Frank (1947)
O Diário de Anne Frank é o depoimento da pequena Annelies Marie Frank (Alemanha, 1929 – Alemanha, 1945). Suas anotações narram os sentimentos, os medos e as pequenas alegrias de uma menina judia que, como sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto – sendo morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã. Isolados do mundo exterior, os Frank enfrentaram a fome, o tédio e a terrível realidade do confinamento, além da ameaça constante de serem descobertos. Alternando momentos de medo e alegria, as anotações se mostram um fascinante relato sobre a coragem e a fraqueza humanas. O relato tocante e impressionante das atrocidades e dos horrores cometidos contra os judeus faz deste livro um precioso documento e uma das obras mais importantes do século XX.
O Pequeno Príncipe (1943)
O Pequeno Príncipe é um clássico da literatura infantil, escrito por Antoine de Saint-Exupéry (França, 1900 – Mediterrâneo, 1944). Narra as aventuras de um inocente menino que vive em um pequeníssimo planeta, até o momento em que vai parar na Terra. Ali, ele encontra um piloto que tenta consertar o seu avião para poder sair do deserto, onde caiu. O Pequeno Príncipe vai contar como abandonou a sua rosa, que lhe era preciosa, e como passou por outros planetas, conhecendo estranhas pessoas grandes. De uma forma sensível e poética, a narrativa conduz o leitor a muitas reflexões pertinentes sobre a felicidade, a beleza da vida e o que abandonamos ao crescer.
Orgulho e preconceito (1813)
Orgulho e preconceito se passa na Inglaterra do final do século XVIII, quando as possibilidades de ascensão social eram limitadas para uma mulher sem dote. Elizabeth Bennet, de vinte anos, é uma espécie de Cinderela esclarecida. Uma das cinco filhas de um espirituoso mas imprudente senhor, no entanto, é um novo tipo de heroína; que não precisará de estereótipos femininos para conquistar o nobre Fitzwilliam Darcy e defender suas posições com perfeita lucidez de uma filósofa liberal da província. No livro, Jane Austen (Reino Unido, 1775 – Reino Unido, 1847) constrói alguns dos mais perfeitos diálogos sobre a moral e os valores sociais da pseudoaristocracia inglesa; além de criticar a futilidade das mulheres na voz da heroína - recompensada, ao final, com uma felicidade que não lhe parecia possível na classe em que nasceu.
A especialista
Renata Lima é coordenadora do Ensino Médio, leitora ávida e entusiasta da cultura, com mais de 20 anos de experiência na educação básica e internacional. Ao longo de sua trajetória, liderou projetos acadêmicos que articulam currículo, competências socioemocionais e experiências de aprendizagem de excelência conectadas à vida real, à cultura popular e ao território. Atuou em instituições de renome, nas quais desenhou e implementou programas inovadores voltados ao protagonismo juvenil, à dupla certificação e à formação integral.
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