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Acordo Mercosul–União Europeia deve reconfigurar o mercado de vinhos no Brasil, avaliam especialistas

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia tem potencial para provocar uma transformação profunda no mercado brasileiro de vinhos, com impacto direto sobre preços, competitividade e diversidade de rótulos disponíveis ao consumidor. A redução das tarifas de importação tende a tornar os vinhos europeus mais acessíveis no país, intensificando a concorrência com rótulos sul-americanos e também com parte da produção nacional, especialmente no segmento de vinhos finos. 

O acordo entre os dois blocos é considerado um dos maiores tratados do mundo, envolvendo um mercado de mais de 700 milhões de consumidores. As negociações começaram no fim da década de 1990 e se estenderam por cerca de 25 anos até a conclusão política do texto. O tratado foi assinado em 17 de janeiro de 2026, mas ainda não entrou em vigor de forma plena, pois depende da ratificação pelos parlamentos nacionais dos países envolvidos e da aprovação do Parlamento Europeu. Atualmente, o texto está em fase de tramitação institucional, com expectativa de aceleração diante do cenário de instabilidade econômica global. 

Entre os principais pontos do acordo está a redução progressiva das tarifas de importação sobre produtos comercializados entre as duas áreas de livre comércio. No caso dos vinhos importados pelo Brasil, o projeto prevê a diminuição gradual da taxa de importação até sua eliminação total. A previsão atual é de que os vinhos tranquilos, como tintos, brancos e rosés, tenham a tarifa zerada em até oito anos, enquanto os espumantes podem levar até doze anos, com reduções progressivas ao longo do período. 

Queda de tarifas muda lógica de preços e consumo de vinhos

Hoje, importar vinho da Europa para o Brasil envolve uma taxa de importação em torno de 27%, percentual que incide logo na entrada do produto no país e acaba sendo multiplicado ao longo de toda a cadeia. Esse custo inicial serve de base para novos impostos, margens de distribuição e tributação no varejo, elevando de forma significativa o preço final ao consumidor. “Esses 27% pagos na importação não ficam só ali. Quando passam pela distribuidora e depois pela loja, viram um montante muito maior no preço final”, explica Marcelo Vargas, especialista em vinhos com ênfase em Sensory Analysis e Consumer Science. 

A experiência com países sul-americanos favorecidos por acordos comerciais ajuda a entender a dimensão do impacto. “O que facilitou o vinho chileno e o argentino serem tão consumidos no Brasil foi o acordo dentro do Mercosul. Caiu a taxa de importação do vinho do Chile e caiu a taxa de importação do vinho argentino”, afirma. “Como são países próximos, fazem vinhos com um perfil que o brasileiro gosta e são vizinhos, o consumo aumentou muito”, acrescenta.

Com a perspectiva de redução das tarifas no novo tratado, o especialista avalia que o movimento tende a se repetir. “Quando tem essa queda do imposto, já se pensa que a redução do preço dos vinhos vai ser de no mínimo 27%. Pode até ser mais, dependendo das estratégias que as importadoras vão implementar. Estamos falando de quase um terço do valor”, analisa.

Na avaliação do setor, esse cenário também deve intensificar a competitividade dos rótulos europeus. “O acordo elimina tarifas elevadas de importação que hoje pesam sobre os vinhos europeus, tarifas que podem chegar a cerca de 27% ou mais”, afirma a sommelière Mirella Fantinel, certificada WSET 3. “Com o pacto, muitos desses impostos serão reduzidos gradualmente até a eliminação, o que deve tornar os vinhos europeus mais competitivos no mercado brasileiro”, avalia. 

Importadoras se preparam para novo cenário competitivo

É justamente nesse ponto que o mercado começa a se movimentar. Representante de uma grande importadora do setor, Daniel Mistico avalia que o acordo tende a mexer diretamente com a dinâmica do comércio de vinhos. “Enxergamos o acordo com muito otimismo. É um passo importante para fortalecer nossa competitividade e ampliar a diversidade de rótulos importados para o Brasil”, afirma. 

Daniel é um dos representantes da Italy’s Wine Brasil, importadora com 14 anos de atuação no país, que trabalha com representação direta de vinhos italianos e mantém operações conectadas a uma central estratégica em Verona, responsável pela seleção de rótulos, logística e adequação regulatória para diferentes mercados. Segundo o executivo, a redução das barreiras comerciais deve facilitar o acesso do consumidor a vinhos europeus e ampliar a oferta disponível no mercado, com reflexos tanto em preço quanto em variedade. “A ideia é que essa redução de custo chegue ao consumidor final, com preços mais acessíveis e um portfólio mais amplo, capaz de atender diferentes perfis de consumo”, completa. 

A mudança trazida pelo acordo comercial deve repercutir também no varejo e no canal HORECA. “Vinhos franceses, italianos, portugueses e espanhóis tendem a chegar com preços mais competitivos, estimulando categorias premium e também produtos de maior giro”, analisa Mirella. Ao mesmo tempo, ela alerta que “o setor vitivinícola brasileiro, especialmente vinhos finos e produtos acima de R$ 50, pode sentir uma pressão competitiva maior nos próximos anos” avalia Mirella. 

Outro fator apontado pelos especialistas é o comportamento do consumidor. “O brasileiro tem a tendência de achar que o vinho europeu é melhor e mais caro, especialmente os vinhos da Itália, França, Espanha e Portugal. Quando esse preço cai, a tendência de compra aumenta”, explica Marcelo Vargas, destacando que o próprio ranking de importações já reflete essa preferência. 

Países que mais exportam vinhos para o Brasil

Ranking geral (todos os países):

  1. Chile


     

  2. Portugal


     

  3. Argentina


     

  4. Itália


     

  5. França


     

  6. Espanha



     

Ranking considerando apenas países europeus:

  1. Portugal


     

  2. Itália


     

  3. França


     

  4. Espanha

Fonte: Ministério da Agricultura e Ideal BI Consulting

Além do varejo, o acordo pode alterar o equilíbrio global do setor. “Itália, França e Espanha juntas representam cerca de 50% da produção global de vinhos. Para esses países, mandar vinho para o Mercosul é extremamente importante”, destaca Vargas. Ele lembra que o tratado permite acelerar ou desacelerar a liberalização de produtos específicos após a implementação, o que pode colocar o vinho como prioridade estratégica. 

Apesar das incertezas sobre o ritmo de implementação, a avaliação é de que o consumidor brasileiro tende a ser o principal beneficiado. “O impacto não será imediato, porque a eliminação das tarifas ocorre de forma gradual e depende também de ajustes tributários internos”, observa Mirella. “Mesmo assim, no médio prazo, alguns rótulos podem registrar reduções entre 20% e 50% no preço final”, pontua. 

O cenário, segundo os especialistas, aponta para uma reorganização do setor. “O mercado de vinhos vai mudar bastante. Quem se preparar melhor vai estar mais propício a aproveitar esse momento”, conclui Vargas.

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