Brasil envelhece em ritmo acelerado e solidão se torna desafio de saúde pública
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O Brasil de 2026 vive uma realidade demográfica que, até pouco tempo, parecia distante. Em 2025, o país atravessou um marco simbólico: 97 idosos para cada 100 crianças. A projeção aponta que essa relação pode chegar a 180 para 100 em 2050, cenário que coloca o envelhecimento como um desafio central de saúde pública. Diante deste cenário, o Hospital Santa Lúcia, por meio do programa Cuidar+, trabalha o envelhecer com qualidade para além do tratamento de doenças crônicas, com foco em três pilares importantes: assistência multidisciplinar, hábitos saudáveis e socialização, fundamentais para um estilo de vida “wellness”, que prioriza o bem-estar.
Atualmente, a solidão é tratada pela ciência como um fator de risco tão grave quanto o tabagismo para a mortalidade precoce. Pesquisas recentes apontam que o isolamento social aumenta drasticamente as chances de Alzheimer, depressão e doenças cardiovasculares. Para a Dra. Priscilla Mussi, geriatra e coordenadora de Geriatria e do programa Cuidar+, do Hospital Santa Lúcia, é preciso diferenciar o isolamento físico do sentimento de desamparo. "Existe uma diferença grande entre solidão e solitude. Na solidão, a pessoa pode estar inclusive acompanhada, mas se sentir sozinha. Esse sofrimento psíquico pode acarretar doenças crônicas como a fibromialgia, pois o corpo acaba externalizando uma dor existencial", explica a especialista. Ela alerta ainda que o isolamento social funciona como um acelerador do declínio cognitivo, pois quanto menos interações, maior a neurodegeneração.
Cuidado em 360º: saúde física, mental e social
No Distrito Federal, por exemplo, o desafio ganha contornos específicos. A capital tem o maior rendimento médio real para pessoas com mais de 60 anos no Brasil, chegando a R$ 5.037, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse público, mais exigente e informado, busca soluções que ofereçam autonomia, mas o poder aquisitivo não anula a vulnerabilidade biológica. Dados do Ministério da Saúde indicam que mais de 70% dos idosos brasileiros convivem com ao menos uma doença crônica não transmissível, como hipertensão, diabetes ou osteoporose.
É neste ponto que a metodologia do Cuidar+ se destaca ao organizar a jornada do paciente de forma integral. Segundo a Dra. Priscilla, o conceito de saúde 360º é a resposta mais eficaz para esse cenário. "Cuidar do idoso é olhar para o físico, o mental, o emocional e o social simultaneamente. Muitas vezes, a população não se prepara para o envelhecimento e acaba chegando à terceira idade com doenças que seriam evitáveis com mudanças de hábitos na juventude", comenta. A médica destaca que o controle rigoroso da hipertensão e do diabetes, por exemplo, é crucial para a cognição, pois evita os chamados "micro AVCs" que, silenciosamente, destroem as capacidades cerebrais ao longo dos anos.
Nova era de tratamentos para o Alzheimer
O uso de novos fármacos aprovados pela Anvisa, como o lecanemabe e o donanemabe, consolida uma revolução farmacológica. Essas medicações mudam o prognóstico para quem recebe o diagnóstico em estágios iniciais. "Qualquer diagnóstico precoce com tratamento adequado faz com que mudemos a evolução da doença. Não adianta diagnosticar e não tratar. Mas, em fase inicial, conseguimos um controle que impede complicações graves", ressalta a Dra. Priscilla.
Para a geriatra, a busca por um especialista deve contar com apoio de familiares, mas, quando possível, ser também proativa. Ela defende que, ao completar 60 anos, é importante que pacientes idosos tenham acompanhamento geriátrico como forma de prevenção, e não apenas quando surgem sinais de dependência. Esse acompanhamento preventivo é o que garante a robustez do paciente, mantendo sua plena funcionalidade, com índices de internação significativamente menores.
Atividade física e nutrição como aliadas
Um dos pilares do Cuidar+ é a desmistificação do envelhecimento como um período de sedentarismo. A ciência atual mostra que a atividade física é o melhor "remédio" para o cérebro. "O exercício evita a demência ao aumentar o volume do hipocampo, a área da memória. Ele estimula a produção de substâncias neuroprotetoras como a irisina e o BDNF, além de promover a neuroplasticidade – a capacidade do cérebro de se reorganizar e criar novas conexões neurais – e melhorar a circulação sanguínea cerebral", detalha a Dra. Priscilla.
Além do movimento, a nutrição tem papel fundamental. O foco não está na imposição de dietas restritivas que ignorem o histórico cultural do idoso, mas em ajustes estratégicos. "Se um idoso de 80 anos sempre comeu determinado tipo de comida, mudar radicalmente agora não traz o maior impacto. O que fazemos é ajustar o que ele já gosta, adicionando, por exemplo, um brócolis ao arroz, garantindo que ele receba os nutrientes necessários sem perder o prazer de comer", explica a coordenadora de Geriatria do Hospital Santa Lúcia.
Socialização como ferramenta terapêutica
Para combater a solidão e o abandono, o programa Cuidar+ promove ações presenciais que funcionam como sessões terapêuticas em grupo. No próximo dia 26 de fevereiro, o Hospital Santa Lúcia Sul (HSLS) realizará um encontro focado em manter as atividades laborais e a produtividade na terceira idade. Para a instituição, o propósito de vida é um dos maiores protetores da saúde mental.
Nos encontros mensais do programa, temas como estímulo musical, higiene, cuidados com o outro e até a complexa questão dos vínculos familiares são abordados. A Dra. Priscilla Mussi ressalta que o fortalecimento desses vínculos muitas vezes passa pelo exercício do perdão. "Conversamos muito sobre o perdão nas consultas. É uma decisão que pode mudar a dinâmica familiar e combater o abandono. Quando o idoso decide plantar coisas boas e retribuir o perdão, o vínculo se fortalece", afirma.
Esses encontros também servem como porta de entrada para a rede multidisciplinar do Hospital Santa Lúcia. O paciente tem acesso a fisioterapeutas que tratam dores de artrose para permitir a locomoção, fonoaudiólogos que monitoram a deglutição, psicoterapeutas para o suporte emocional e educadores físicos. Toda essa estrutura é interligada por enfermeiros navegadores, que garantem que o idoso não seja apenas "mais um número", mas alguém com uma jornada de saúde personalizada e ágil.
“O programa Cuidar+ busca transmitir uma mensagem clara para a sociedade brasiliense: o envelhecimento acontece para todos, mas envelhecer bem é uma escolha. Quando mostramos caminhos práticos para manter vínculos e propósito, transformamos o medo do futuro em um projeto de vida ativo", conclui a Dra. Priscilla Mussi.
SERVIÇO
O que: Encontro mensal programa Cuidar+
Quando: 26 de fevereiro de 2026
Local: Hospital Santa Lúcia Sul, da Asa Sul.
Público: Pacientes, familiares e cuidadores.









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