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Centro de Grãos e Fibras do IAC perde programas de pesquisa de melhoramento genético por falta de pesquisadores

há 44 minutos
6 min de leitura

O Centro de Grãos e Fibras do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA) e sediado na Fazenda Santa Elisa do IAC, perdeu dez programas de pesquisa focados em melhoramento genético nas últimas décadas por falta de pesquisadores. Um levantamento da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) aponta que foram interrompidas pesquisas com arroz, crotalária, algodão,mamona, girassol, gergelim, aveia, trigo, triticale e soja.

A interrupção ocorreu após a aposentadoria ou falecimento de pesquisadores responsáveis, principalmente melhoristas, que não foram substituídos. Entre as atividades desenvolvidas estavam programas de melhoramento genético, responsáveis pelo desenvolvimento de cultivares e também pela manutenção de materiais (linhagens e variedades), que integram os acervos e coleções do Instituto. 

“São linhas de pesquisa diretamente relacionadas à produção de alimentos e à segurança alimentar. Permitir que programas construídos durante décadas sejam interrompidos por falta de reposição de pesquisadores demonstra uma negligência grave do Estado com um patrimônio científico que pertence à sociedade”, afirma Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.

O levantamento aponta ainda que outros sete programas de melhoramento são mantidos atualmente por apenas um pesquisador do Centro, situação que atinge adubos verdes, milho, milho-pipoca, grão-de-bico, sorgo, sorgo forrageiro e vassoura.  Algumas linhas, conforme o levantamento, estão sendo mantidas para produção de sementes, mas sem melhorista. A APqC salienta que este esforço é momentâneo e não garante a continuidade do programa de melhoramento genético.

“Quando não há novos pesquisadores suficientes para assumir as linhas de pesquisa, há um apagão científico. Hoje, além de programas de melhoramento paralisados, alguns bancos de germoplasma estão sem a manutenção adequada”, explica Lutgens.

Esses acervos conservam a diversidade genética utilizada pelos pesquisadores para desenvolver novas cultivares, inclusive materiais resistentes às doenças, pragas, seca, altas temperaturas e outras adversidades. No IAC, as coleções acumuladas durante décadas guardam materiais que não estão mais disponíveis no mercado. O valor de um acesso também pode surgir muitos anos depois de sua incorporação ao banco, quando uma característica genética até então pouco utilizada passa a ser necessária para enfrentar uma nova doença, praga ou condição climática.

“Os bancos não são depósitos estáticos de sementes armazenados em câmaras frias. Com o tempo, eles perdem capacidade de germinação e precisam ser levados ao campo para serem multiplicados e novamente conservados", comenta a presidente da APqC. ”No caso do milho, por exemplo, o trabalho pode exigir polinização manual e controle para impedir cruzamentos indesejados, um trabalho que exige pesquisadores e técnicos especializados”.

Lutgens destaca que a relação entre os bancos de germoplasma e os programas de melhoramento é direta. “O conhecimento das técnicas de melhoramento é resultado de anos de pesquisa e não é recuperado automaticamente com a contratação de outro profissional. Sem atualização, o banco de germoplasma fica parado no tempo", reforça.

A falta de manutenção já provocou perdas do germoplasma de girassol, após o falecimento da pesquisadora responsável pelo programa.

Carreira sob risco

Além das aposentadorias e falecimentos, o Centro de Grãos e Fibras também perdeu três pesquisadores que atuavam em programas de melhoramento para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A diferença salarial é apontada pela APqC como um dos fatores que dificultam a permanência de cientistas no Estado. Hoje, um pesquisador científico de São Paulo no último nível da carreira não recebe nem a metade do salário de um pesquisador da Embrapa, que ainda conta com benefícios adicionais por tempo de serviço, sexta-parte, titulação e outras vantagens.

“A lei que alterou a carreira no ano passado retirou conquistas históricas, como sexta-parte e quinquênios para quem optar pelo subsídio, e ampliou de seis para 18 os níveis de progressão. Em vez de tornar a carreira mais atrativa para manter pesquisadores altamente qualificados no Estado, criou uma estrutura que dificulta a evolução profissional. O resultado é a perda de cientistas e de conhecimento acumulado durante décadas”, afirma Helena.

A Lei Complementar nº 1.435/2025 entrou em vigor em dezembro de 2025 e alterou a estrutura da carreira de Pesquisador Científico. Entre outras mudanças, extinguiu o Regime de Tempo Integral (RTI) e a Comissão Permanente do Regime de Tempo Integral (CPRTI), modificou a remuneração e ampliou de seis para 18 os níveis de progressão funcional. Como pontos da nova estrutura ainda dependem de regulamentação, a Justiça de São Paulo, em ação civil pública proposta pela APqC, impediu que o Estado exigisse dos pesquisadores a opção pelo novo regime remuneratório antes dessa regulamentação.

Alerta feito em 2009

A falta de pesquisadores no IAC é um problema documentado há pelo menos 17 anos. Em relatório técnico produzido em agosto de 2009, a direção do próprio Instituto alertava que aposentadorias poderiam reduzir o quadro de pesquisadores em cerca de 39% em cinco anos e 79% em dez anos caso não houvesse reposição. Naquele momento, o IAC tinha 197 pesquisadores e apontava necessidade de contratação para assegurar a continuidade das pesquisas.

A situação do Centro de Grãos e Fibras já aparecia entre as mais críticas: havia 22 pesquisadores, após a perda de 15 profissionais entre 2005 e 2008, e nove tinham possibilidade de aposentadoria ainda em 2009. O documento apontava a necessidade de profissionais para programas de arroz, trigo e outros cereais de inverno, soja, algodão, amendoim e melhoramento de grãos e fibras tolerantes aos estresses como temperatura e déficit hídrico. Hoje, o Centro conta com apenas sete cientistas. 

Áreas de pesquisa

A preservação dos bancos de germoplasma e a continuidade dos programas de melhoramento dependem também das áreas experimentais. É nelas que os acessos retirados das câmaras frias são plantados, avaliados e multiplicados para a renovação das sementes. As áreas também são utilizadas para desenvolver novas cultivares e produzir sementes quando há demanda dos agricultores. Atualmente, oito tipos de grãos contam com produção de sementes: arroz, amendoim, crotalária, milho, mamona, triticale, sorgo forrageiro e vassoura.

O manejo exige planejamento. Determinados materiais precisam ser plantados distantes de outros para impedir cruzamentos e contaminação genética. No milho, por exemplo, a preservação de uma linhagem pode exigir isolamento e polinização controlada. A própria manutenção dos materiais exige trabalho contínuo de campo.

“Muitas vezes, esses acessos precisam ser testados em climas diferentes e até em condições distintas de exposição a pragas nas várias regiões do Estado. Por isso, a manutenção das áreas de pesquisa é essencial para o sucesso da agricultura e para a segurança alimentar”, afirma Helena.

São Paulo conta atualmente com 39 áreas de pesquisa agropecuária espalhadas pelo Estado. Uma delas é a Fazenda Santa Elisa, em Campinas, pertencente ao IAC. A unidade abriga experimentos agrícolas e parte dos bancos de germoplasma do Instituto, incluindo materiais do banco de café, com acessos raros ou extintos de seus habitats.

As diferentes áreas são necessárias também porque uma cultivar não pode ser avaliada apenas em uma condição de solo e clima. A rede experimental permite verificar como os materiais respondem às diferenças ambientais existentes no Estado antes que uma tecnologia seja disponibilizada aos produtores.

Concurso

O último concurso para pesquisadores científicos dos institutos ligados à Agricultura teve 37 vagas e foi autorizado em 2022, durante o governo Rodrigo Garcia. Os servidores selecionados foram divididos entre os sete institutos da SAA: APTA Regional, Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Instituto Biológico, Instituto de Economia Agrícola (IEA), Instituto de Pesca, Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e Instituto de Zootecnia (IZ).

A APqC considera o número insuficiente diante da redução acumulada dos quadros e da quantidade de linhas de pesquisa existentes nas instituições. O problema se agrava pela falta de servidores das carreiras de apoio, responsáveis por atividades de campo, laboratório, manutenção e administração.

Além da falta de concurso nessa área, neste ano o governo realizou um Programa de Demissão Incentivada (PDI) e publicou um decreto que extinguiu mais de cinco mil cargos das carreiras de apoio à pesquisa .

“Não estamos falando apenas da perda de postos de trabalho dentro de um instituto. Quando o Estado interrompe programas de melhoramento, deixa bancos de germoplasma sem equipes e reduz as estruturas de campo e laboratório, o impacto chega ao agricultor e à vida das pessoas. É a pesquisa que desenvolve variedades mais resistentes, permite produzir com menos insumos, responde às mudanças climáticas e contribui para reduzir perdas. O resultado desse conhecimento está na produção de alimentos, na preservação ambiental, na saúde da população e na economia de São Paulo. Desmontar essa estrutura significa comprometer a capacidade do Estado de responder aos desafios que já estão colocados para a agricultura”, conclui Helena.

 

Sobre a APqC 

Fundada em 1977, a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) representa servidores de 16 Institutos Públicos de Pesquisa do Estado, nas áreas de Meio Ambiente, Agricultura e Saúde. Além de incentivar o desenvolvimento da ciência, como instrumento de transformação socioambiental do Estado de São Paulo, a entidade tem como missão estabelecida em seu estatuto a defesa dos institutos e da carreira de pesquisador científico, criada em 1975, além do patrimônio público ligado à pesquisa, incluindo prédios históricos e fazendas experimentais. A entidade defende a recriação dos Institutos Florestal, de Botânica, Geológico e da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), extintos em 2020*.  

Os pesquisadores representados pela APqC atuam nos institutos:  

Meio Ambiente: Instituto Florestal*, Instituto de Botânica*, Instituto Geológico* (Integram a Secretaria de Estado do Meio Ambiente, infraestrutura e logística). 

Agricultura: APTA Regional, Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Instituto Biológico, Instituto de Economia Agrícola (IEA), Instituto de Pesca, Instituto de Tecnologia de Alimentos, Instituto de Zootecnia (Integram a Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento).  

Saúde: Instituto Adolfo Lutz, Instituto Butantan, Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Instituto Lauro de Souza Lima, Instituto Pasteur, Instituto de Saúde, SUCEN*, Laboratório de Investigação Médica-LIM HC-USP (Integram a Secretaria de Estado da Saúde). 


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