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Cineastas de Brasília e Goiás no Festival Visões Periféricas

22 de jul.
7 min de leitura

Pioneiro na difusão do cinema nacional produzido fora dos grandes centros, o 19o. Festival Visões Periféricas inicia no dia 23 de julho a exibição de 69 produções selecionadas entre 856 inscrições — número 70% maior do que em 2025. A noite de estreia será com uma homenagem ao projeto Vídeo nas Aldeias, com a exibição do longa Arquivo Vivo, de Vincent Carelli e Ana Carvalho. A programação gratuita segue até 26 de julho, reunindo obras de 18 estados, das cinco regiões do país. Centro-Oeste entra com oito produções, revelando a força da produção de cinema regional.

Segundo os curadores Lukas Nascimento, Quézia Lopes, Olinda Tupinambá e Wilq Vicente, nessa edição as produções abarcam principalmente narrativas ligadas a mulheres, memória, identidades de gênero, culturas de terreiro, apagamentos históricos, vida nas cidades, questões ambientais e precarização do trabalho. Os filmes escolhidos foram divididos em sete mostras, sendo quatro competitivas e duas não competitivas. Um júri escolherá uma obra de cada mostra competitiva como vencedora. Haverá também o prêmio de melhor filme eleito pelo júri popular.

Entre as mostras competitivas estão Fronteiras Imaginárias (obras de até 25 minutos produzidas por realizadores independentes); Cinema da Gema (filmes de até 25 minutos produzidos no Estado do Rio de Janeiro); Panorâmica (médias e longas-metragens com duração mínima de 40 minutos); e Visorama (produções de até 15 minutos realizadas em projetos de formação audiovisual no ensino básico, médio ou em iniciativas do terceiro setor). Entre as mostras não competitivas estão: ICPLAY, com curtas especialmente selecionados para exibição na plataforma Itaú Cultural Play; Informativa, com filmes de longa-metragem; e a Mostra Visões do Amanhã, que inclui produções voltadas para o público infanto-juvenil. 

Haverá também acesso aos filmes por streaming. Uma seleção especial será exibida exclusivamente na plataforma gratuita da Itaú Cultural Play, de 23 de julho a 6 de agosto. Outra possibilidade é a mostra Visorama online.

Brasília entra com cinco filmes, incluindo a primeira animação do DF

Primeiro longa-metragem de animação produzido no Distrito Federal, O sonho de Clarice é dirigido por Fernando Gutiérrez e Guto Bicalho. No filme, uma menina criativa lida com o luto pela perda da mãe, usando a fantasia para encontrar esperança e reconstruir sua vida ao lado do pai, um carroceiro. Premiado em diversos festivais, a produção candanga celebra a amizade e as belezas do cotidiano. A Jornada de O Sonho de Clarice foi longa, se iniciando em 2014. Segundo o diretor, foram várias escritas de roteiro, várias inscrições em editais de desenvolvimento, vários "nãos" até que finalmente os produtores conseguiram tirar o filme do papel. De 10 anos dedicados ao filme, 6 foram exclusivamente voltados ao trabalho de produção.

Multipremiado internacionalmente, vencedor de 12 prêmios, incluindo 7 de Melhor Filme, o longa Casebre é um filme independente, gravado em uma periferia do Distrito Federal. Dirigido por Henrique Raynal, foi realizado com recursos do Fundo de Apoio a Cultura do Distrito Federal.

Algum dia o petróleo levará benefícios para a Amazônia? O documentário Insustentável - A realidade do petróleo na Amazônia mostra em pouco mais de 17 minutos que a resposta é óbvia. Com direção de André Borges e Fer Ligabue, o filme foi produzido pelo Instituto Climainfo, organização sem fins lucrativos que qualifica o debate público sobre a crise climática com informação clara e baseada em evidências. 

Ao Sabor da Maré é um curta-metragem universitário dirigido por Pablo Rodrigues Cardoso, produzido no Instituto Federal de Brasília (IFB) - Campus Recanto das Emas. O filme de ficção acompanha a história de alunos que, imersos em uma rotina escolar, encontram na meditação coletiva um momento para alinhar suas energias.

Com o curta Fogo Abismo, o cineasta e pesquisador brasiliense Roni Sousa estreia na direção cinematográfica. O documentário revisita lembranças da infância do diretor na Vila Rabelo, ocupação localizada em Sobradinho II, na Capital Federal, entrelaçando memória pessoal, arquivos de família e fabulação. Gravado em diálogo com os moradores, o filme é fruto de um processo de criação enraizado no território. Ao unir registros íntimos, elementos ficcionais e reflexões subjetivas, Fogo Abismo resgata experiências periféricas e coloca em cena temas que atravessam tanto a vida local quanto debates mais amplos sobre desigualdade, racismo ambiental e resistência.

 

Goiás desponta com um documentário, um filme de ficção e outra animação

Único longa goiano no festival, Vasta natureza de minha mãe convida o público a refletir sobre a relação entre os espaços que habitamos e os rastros que deixamos. O cineasta Aristótelis Tothi concebeu o filme ao lado de sua mãe, Inez dos Santos, numa produção sobre a própria vida deles e sobre a como contar essa história no cinema. O projeto circulou por importantes festivais, como o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e o Panorama Internacional Coisa de Cinema. 

Com direção e roteiro de Gabriel Newton, o curta A Tela parte de um gesto simples de uma jovem da periferia de Goiânia que pendura um quadro de dez mil reais na parede da casa onde vive com a avó. A partir disso, a história abre espaço para falar sobre arte, vontade, pertencimento e o direito de querer tudo. Gabriel Newton é diretor e roteirista formado em Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás. Sua obra se volta para narrativas que investigam a negritude, a periferia e as contradições sociais no Brasil contemporâneo. 

O outro curta regional é Work OUT, uma animação de Alana Victória Soares de Souza. No filme, uma jovem, presa a um trabalho sem propósito, se lembra de um sonho esquecido da infância. Agora, ela precisa decidir entre o conforto do presente e o chamado de uma vocação que nunca se apagou.

20 anos de transformação do audiovisual periférico

Para Márcio Blanco, idealizador e coordenador geral do evento, os 20 anos do Visões Periféricas acompanharam a consolidação de um cinema que ampliou a diversidade de vozes e narrativas no audiovisual brasileiro. “Quando o festival surgiu, poucas pessoas olhavam para essa produção da periferia. Duas décadas depois, ela ocupa um espaço cada vez mais relevante, ajudando a romper estigmas, revelando a diversidade de olhares sobre questões nacionais e regionais e apresentando novos arranjos estéticos e criativos no audiovisual brasileiro”, diz ele. “Vejo também o interesse pela retomada da narrativa. Depois do consumo fragmentado de conteúdo nas redes sociais, o público jovem volta a valorizar o cinema como espaço de encontro e construção de experiências compartilhadas. O cinema é uma experiencia coletiva de socialização, de encontro e a narrativa é essa ferramenta de conexão entre as pessoas”, afirma.

Wilq Vicente, um dos curadores, destaca as mudanças nas temáticas apresentadas ao longo do tempo. “Se antes predominavam filmes de denúncia sobre temas urgentes, como violência, racismo, representatividade e território, hoje vemos obras mais elaboradas do ponto de vista narrativo e estético, com crescimento da ficção e mais subjetividade”, afirma. “As questões raciais e sociais continuam presentes, mas são apresentadas de forma mais elaborada, atravessando histórias sobre trabalho, afetos, relações familiares e amor”, diz o curador, autor dos livros "Cinema de periferia: narrativas do século 21" (Editora Funilaria) e "Quebrada? Cinema, vídeo e lutas sociais" (USP). Segundo ele, as produções inscritas mostram também a relevância de políticas públicas de financiamento e apoio, como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, surgidas durante a pandemia. “Pela primeira vez chegaram ao festival filmes de cidades e estados que nunca haviam participado e muitos com apoio dessas duas leis”, diz ele

Entre as atividades do festival se destaca também o Visões Lab, laboratório gratuito de desenvolvimento de projetos audiovisuais, dedicado à formação, articulação de mercado e aprimoramento de projetos cinematográficos, a ser realizado entre 21 e 26 de julho de 2026, paralelamente às mostras.O Festival Visões Periféricas é um projeto da Supimpa Produções Artísticas e Culturais, com patrocínio do Banco Itaú e apoio do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, e RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc. A programação completa, incluindo sessões com legendas descritivas e Libras, pode ser conferida no site do evento.

FILMES DE BRASÍLIA

O sonho de Clarice (longa metragem)Animação | 83' | DF | 2025 | 10 anosDireção: Guto Bicalho e Fernando GutiérrezSinopse: Após a morte inesperada da mãe, Clarice, uma menina de nove anos, vê seu mundo se transformar. Antes cercada pelo universo do teatro de mamulengos, canções e afeto, agora enfrenta, ao lado do pai, os desafios do luto e da solidão. Refugiando-se na fantasia, Clarice mistura sonhos e memórias para reconstruir seus vínculos e descobrir, em meio à dor, novas formas de esperança, amizade e beleza no cotidiano. 

Casebre (longa metragem)Ficção | 86' | DF | 2025 | 14 anosDireção: Henrique RaynalSinopse: Vencedor de 12 prêmios — incluindo 7 de Melhor Filme — CASEBRE é um mergulho de brasilidade moderna, suas questões e diversidades. O longa de esteia do Diretor Henrique Raynal, acompanha Benedito, um homem infeliz com sua própria vida que ao enfrentar uma grande perda descobre sua ancestralidade na figura perdida de um familiar, alguém que carrega a dureza de quem soube sobreviver. Tendo como palco uma cidade do interior que poderia estar em qualquer lugar do Brasil, passando por temas como fé, sexualidade e saúde mental, Casebre é sobre recuperar a nossa identidade.

Insustentável: a realidade do petróleo na Amazônia (média metragem)Documentário | 20’ | DF | 2025 | LivreDireção: André Borges e Fer LigabueSinopse: A exploração de petróleo na Amazônia brasileira já é uma realidade há décadas, mas as riquezas prometidas pela exploração fóssil nunca foram uma realidade no cotidiano dos municípios afetados.

Ao sabor da maré (curta metragem)Ficção | 11’ | DF | 2025 | Livre Direção: Pablo Rodrigues CardosoSinopse: Numa escola, a introspecção de personalidades distintas toma uma meditação uníssona.

Fogo abismo (CURTA)Documentário | 12’ | DF | 2025 | LivreDireção: Roni Sousa Sinopse: Entre fotografias de família, imagens de arquivo e uma carta escrita em 2002, as memórias da Vila Rabelo ganham forma. Enquanto um pai constrói casas para os outros e uma mãe sonha partir, fogo, ausência e resistência atravessam a infância de uma criança nas margens de Brasília. Ao revisitar lembranças pessoais, o filme resgata histórias de trabalho, pertencimento e resistência, revelando as marcas deixadas por uma comunidade frequentemente ausente da memória oficial da capital brasileira.

 

FILMES DE GOIÁS

Vasta natureza de minha mãeDocumentário | 79' | GO | 2025 | 14 anos Direção: Aristótelis Tothi e Inez dos SantosSinopse: Mãe e filho descobrem juntos como filmar a vida dentro de casa. A trajetória de Inez é percorrida em diferentes tempos, enquanto Aristótelis registra o cotidiano, reinventando e capturando a natureza de sua mãe. A câmera se torna um elo entre o tempo e espaço, permitindo aos dois a possibilidade de continuar sonhando. 

A TelaFicção | 21’ | GO | 2025 | LivreDireção: Gabriel NewtonSinopse: Martinha pendura um quadro de dez mil reais na parede da casa simples onde vive com a avó. O gesto inicia uma jornada íntima sobre arte, desejo e o direito de querer tudo, sendo uma mulher negra. 

Work OUTAnimação | 2’ | GO | 2025 | LivreDireção: Alana Victória Soares de SouzaSinopse: Uma jovem, presa a um trabalho sem propósito, se lembra de um sonho esquecido da infância. Agora, ela precisa decidir entre o conforto do presente e o chamado de uma vocação que nunca se apagou.

 

SERVIÇOFestival Visões Periféricas 2026De 23 e 26 de julhoProgramação completa: www.visoesperifericas.com.brVerificar classificação indicativa de cada filme

 


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