Curta em 16mm produzido em Brasília propõe reflexão sobre masculinidades
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Brasília volta a ouvir o som mecânico da câmera, o silêncio atento do set e a espera entre um plano e outro. Após mais de dez anos sem produções locais rodadas em 16mm, a Capital Federal abriga o curta-metragem Encravado, um projeto filmado inteiramente em película, gesto que reafirma o cinema como prática de presença, memória e escolha política em tempos de excesso digital.
Produzido pelo cineasta e produtor trans Nicolau Araújo, o curta nasce do encontro entre uma inquietação íntima e um desejo coletivo de reaproximação com a matéria do cinema. A narrativa acompanha uma mulher que, ao se arrumar para um encontro, se depara com um pêlo encravado no seio esquerdo, próximo ao coração. Ao tentar removê-lo, o incômodo ganha corpo: o pêlo se transforma em um homem que passa a dialogar e confrontar a personagem, personificando violências machistas e racistas acumuladas ao longo da vida, na encarnação de um típico “esquerdo macho”. Falado em uma língua inventada, gutural e sem nacionalidade, o diálogo se constrói como experiência universal, compreendida por meio de legendas e reconhecida pelo desconforto que provoca.
Escrito antes da transição de Nicolau, o roteiro atravessa camadas de gênero, medo e sobrevivência. Hoje, ao circular socialmente em espaços masculinos, o realizador observa como discursos violentos seguem sendo reproduzidos com naturalidade, muitas vezes protegidos pelo silêncio e pela cumplicidade. O curta transforma essa escuta forçada em embate simbólico, deslocando para o corpo da imagem aquilo que costuma permanecer invisível.
Essa dimensão temática se reflete diretamente na escolha estética e no método de produção. Em um tempo marcado pela instantaneidade, pela abundância de imagens e pela possibilidade infinita de refazer, filmar em película 16mm impõe limite, atenção e responsabilidade. Cada plano exige uma decisão. Cada erro permanece. No set, não havia monitores: apenas quem operava a câmera via a imagem captada. O processo se construiu a partir da confiança, da escuta e de uma presença coletiva rara nos modos de produção contemporâneos.
Para viabilizar o projeto, Nicolau adquiriu fora do país uma câmera 16mm funcional e testada, atualmente a única em operação no Distrito Federal. Todas as imagens do filme, incluindo still e making of, foram realizadas em película e serão finalizadas no digital, o que reorganizou completamente o método de produção e pós-produção. Grande parte da equipe teve seu primeiro contato com o formato analógico durante as filmagens, num aprendizado que também se revelou um gesto político: desacelerar, planejar e aceitar o inesperado.
O material filmado será revelado e digitalizado em Paris, em laboratório especializado em processos químicos para película. Nicolau destaca: “fazer esse caminho fora do Brasil hoje não é escolha estética, é necessidade, mas também é uma forma de colocar o filme em diálogo com uma tradição viva do cinema em película”. A pós-produção segue um fluxo internacional, com montagem, desenho de som e finalização realizados em diferentes países, ampliando o alcance do projeto sem abrir mão de sua origem territorial.
Inserido no movimento recente de retomada da película no Brasil, o curta brasiliense marca um possível ponto de inflexão para o cinema analógico em Brasília. Não como retorno ao passado, mas como afirmação de que, mesmo em tempos digitais, ainda há valor estético, político e sensível em filmar com tempo, com risco e com memória. Com lançamento previsto para 2027 e circulação voltada a festivais nacionais e internacionais, o projeto reafirma a capital como espaço de experimentação e resistência cinematográfica.
FICHA TÉCNICA
Encravado
Direção e roteiroNicolau Araújo
ProduçãoNicolau Araújo e Sara Silveira
ProduçãoRelatar-se
CoproduçãoDezenove Som e Imagens & Aicon
ElencoGabriela CorreaEmanuel Lavor
Consultoria de roteiroAndré Antonio
Assistência de direçãoPrimeira AD: Júlia RiosSegunda AD e continuísta: Isabelly Gomes
Provocação de elencoLarissa Mauro
Produção executivaCauê Brandão
Direção de produçãoRenata Schelb
ProduçãoCarla Barcellos
Assistência de produçãoRenata Rangel e Paulo Henrique
Direção de arteJacqueline Pereira
ArteProdução de objetos: Isabella RodriguesCenografia e produção de arte: Gabe CastroDesign gráfico: Emmanuel Fritz
Equipe de arte e montagemContrarregra: Davi LídiaAssistência de contrarregra: Janaína Rodrigues (Elfa)Construção: Arte OKResponsável técnico de montagem: Walisson BarbaCenotecnia: Ruã SiqueiraAssistência de cenotecnia: Danillo Siqueira e Jeferson LopesContrarregra de montagem: Janaína Rodrigues (Elfa)Operação de router: Layrone da SilvaMadeiramento: Madeireira Santa Bárbara
Caracterização e efeitos especiaisGabi BritzkiAssistência: Amanda Kuppens
FigurinoGabi Quinaud
Direção de fotografiaElisa Souza e Petronio Neto
Câmera1º assistente: Flávio Chacal Geromel2ª assistente: Erica OliveiraLoader: Fabiano Pierri (Bibi)
Elétrica e maquináriaVictor Ekström (V2) – eletricistaAda Souza – maquinistaAssistência: Tio Nerd
Som diretoBernardo Paixão (técnico de som)Miguel Leujim (microfonista)
Trilha sonoraEduardo Canavezes
Desenho de somAdrien Sandu
MontagemRafael Lobo
Efeitos especiaisVinicius Moreira
Finalização de corPetronio Neto
Still e making ofJoão Coleta
Pintura do pôsterFlávio Lima
DistribuiçãoA definirAssessoria de ImprensaMarianna França









