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El Niño ameaça produção de cacau e reforça importância de projetos preparados para eventos climáticos extremos

há 14 horas
3 min de leitura

A intensificação do El Niño coloca a produção agrícola brasileira em alerta e pode trazer desafios adicionais para a cadeia do cacau. O fenômeno, que altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do país, tem potencial para afetar o desenvolvimento das plantações, dificultar o manejo agrícola e aumentar os custos de produção. Nesse cenário, projetos estruturados para lidar com adversidades climáticas podem ajudar produtores e comunidades rurais a reduzir vulnerabilidades e preservar a continuidade de suas atividades.

O alerta ganha relevância diante das previsões oficiais. Segundo o quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado em outubro por órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), há 95% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro. A previsão também aponta para a intensificação da seca no Norte e no Nordeste, regiões que concentram importantes áreas de produção agrícola.

Como o estresse hídrico prejudica o desenvolvimento do cacau

O cacaueiro depende de condições adequadas de umidade para se desenvolver. Períodos prolongados de seca e temperaturas elevadas podem comprometer o crescimento das plantas, afetar sua atividade fotossintética e prejudicar o desenvolvimento da lavoura. Um estudo publicado em 2024 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira identificou redução da capacidade fotossintética e do crescimento de mudas de cacau submetidas a condições prolongadas de estresse hídrico.

“Quando falamos de produção agrícola diante de eventos climáticos extremos, precisamos considerar não apenas o impacto imediato sobre as plantas, mas também a capacidade de adaptação de todo o sistema produtivo. A falta de água, o calor excessivo e as mudanças no regime de chuvas podem dificultar o estabelecimento de novas mudas, aumentar a necessidade de manejo e comprometer a produtividade. A intensidade desses efeitos depende das condições de cada região e das características da plantação”, explica Fernando Vincenti, sócio-fundador da Verthic, consultoria socioambiental que já coordenou projetos de plantio de cacau junto à comunidades indígenas na Amazônia.

Caso as condições climáticas afetem a produtividade e a oferta de amêndoas, a cadeia produtiva também poderá enfrentar pressão sobre os custos e os preços. Esse efeito, porém, depende de outros fatores, como estoques, demanda internacional, produção de outros países e condições de mercado.

Diante desse cenário, a preparação para adversidades climáticas deve começar antes que os impactos se concretizem. A escolha de espécies e variedades adequadas, o planejamento do plantio, o manejo do solo e da água e o monitoramento das condições ambientais são medidas que podem contribuir para tornar os sistemas produtivos mais resilientes.

Em projetos agroflorestais, por exemplo, o planejamento da combinação entre espécies agrícolas e florestais pode contribuir para diversificar a produção e favorecer o funcionamento do ecossistema. Os resultados, entretanto, dependem do desenho do sistema, das condições locais e do manejo adotado.

“Não existe uma solução única para todos os territórios. Um projeto consistente exige conhecimento técnico, experiência de campo e uma equipe capaz de compreender tanto as características ambientais quanto a realidade social e econômica das comunidades envolvidas. É preciso planejar, acompanhar os resultados e adaptar as estratégias conforme as condições mudam”, afirma Vincenti.

É nessa abordagem interdisciplinar que a Verthic estrutura sua atuação. Criada em 2011, a consultoria desenvolve projetos socioambientais com profissionais e colaboradores de áreas como engenharia florestal, agronomia, biologia, ecologia, antropologia e gestão ambiental. Sua atuação inclui iniciativas de plantio de cacau, sistemas agroflorestais, restauração e regeneração florestal e conservação territorial, com atenção às particularidades de cada localidade e à autonomia das comunidades.

Em períodos de maior instabilidade climática, projetos que integram planejamento produtivo, conservação ambiental e conhecimento do território podem ajudar a reduzir riscos e fortalecer a capacidade de adaptação dos produtores. Mais do que responder aos prejuízos depois que eles acontecem, a preparação antecipada é parte importante da construção de sistemas agrícolas capazes de atravessar períodos difíceis e manter suas atividades no longo prazo.


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