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Em “Marias”, Sarahysha transforma feminino, ancestralidade e Maria Padilha em música

há 2 horas
3 min de leitura

Recém-lançada, a faixa “Marias” é inspirada em Maria Padilha e foi composta durante um processo de música-manifestação, utilizado no novo disco da artista Sarahysha.

Cantora, performer e artista transdisciplinar brasileira radicada no Benin, ela vem construindo, há mais de 15 anos, uma pesquisa que conecta corpo, memória, espiritualidade e diáspora. Em “Marias”, esses territórios se encontram em uma faixa que fala do feminino, mas cuja própria história de criação acabou se tornando parte indissociável da obra.

Composta por Lucas Gomes, a música foi trabalhada durante uma residência artística realizada no Brasil a partir do SB LAB SP BR, laboratório criativo conduzido por Sarahysha. Por três dias, músicos brasileiros mergulharam em ritmos trazidos do Benin e investigaram possibilidades de encontro com linguagens da música brasileira.

O processo reuniu ainda músicos como Fábio Leandro, Felipe Gomes e Alisson Bruno, ligados às cenas do jazz e da música afro-brasileira, dando origem ao álbum SB LAB SP BR - projeto de quatro faixas que materializa esse trânsito entre África Ocidental e Brasil.

Música-manifestação

Ao falar sobre a criação de “Marias”, Sarahysha descreve a sensação de estar diante de uma obra que não parecia pertencer somente às pessoas que estavam materialmente envolvidas em sua construção.

A artista associa essa percepção a Maria Padilha, figura espiritual presente em tradições afro-brasileiras e que, segundo a cantora, atravessou de maneira direta a história da faixa.

A experiência foi tão determinante que a entidade aparece associada à autoria da composição ao lado de Lucas Gomes, enquanto Sarahysha assina a produção executiva. Em respeito à história e ao processo, “Marias” não é uma faixa monetizada dentro do projeto.

“Não se trata de utilizar o espiritual como linguagem estética ou estratégia de posicionamento. A conexão com a espiritualidade integra o próprio método de trabalho em sua base”, conta Sarahysha. A intenção da maneira como o trabalho vem sendo composto, segundo ela, é compreender se existe coerência entre aquilo que está sendo criado e as referências espirituais e naturais que orientam sua pesquisa.

Sarahysha usa o conceito de música manifestação para falar de criações que não surgem exclusivamente de uma decisão racional de produzir uma obra. São canções percebidas primeiro como sensação, movimento, intuição, memória ou experiência e que só depois encontram uma forma sonora. “Não é uma coisa realizada e preparada para o mercado somente. Por isso a gente chama de música manifestação”, explica.

Essa lógica também aparece na partitura corporal, outro conceito utilizado por Sarahysha em sua pesquisa. Nela, respiração, movimento, memória, percepção e sensação participam do processo de transmissão musical, deslocando a composição para além da partitura convencional. Nesse processo criativo, o corpo não é apenas o instrumento que executa uma música pronta. Ele também guarda, reconhece e transmite informação.

Por que “Marias”?

O feminino aparece como pluralidade. O próprio título abre espaço para muitas Marias: mulheres, histórias, forças, memórias e experiências que não precisam se reduzir a uma narrativa universal sobre o que significa ser mulher.

Há também uma dimensão particular na presença de Maria Padilha dentro dessa construção. Em “Marias”, o feminino reflete a própria maneira como Sarahysha compreende o nascimento e o destino da obra. 

Por isso, falar da música exige falar também de autoria, intuição, espiritualidade, liberdade e da possibilidade de reconhecer conhecimentos que nem sempre passam pelos processos tradicionais de criação.

Entre Benin e Brasil

Nascida em São Paulo e radicada no Benin, Sarahysha desenvolve sua pesquisa artística no trânsito entre Brasil e África Ocidental.

Para a residência que deu origem ao projeto SPBR, a artista levou ao Brasil referências de ritmos beninenses e propôs aos músicos investigar como essas estruturas poderiam dialogar com suas próprias experiências musicais. O objetivo não era simplesmente sobrepor uma sonoridade africana a uma brasileira, mas permitir que os encontros produzissem uma terceira possibilidade.

Assim, afro-jazz, improvisação, matrizes afro-brasileiras e referências da música da África Ocidental convivem em um processo no qual ancestralidade é entendida menos como retorno a um passado estático e mais como uma linguagem capaz de continuar produzindo novas formas de criação.

“Marias” é uma obra coletiva em sua construção, feminina em suas muitas camadasq e espiritual na maneira como Sarahysha entende sua existência.


Sobre Sarahysha

Sarahysha é cantora, compositora, performer e artista transdisciplinar brasileira radicada no Benin. Há mais de 15 anos, desenvolve uma pesquisa que atravessa música, corpo, performance, audiovisual, ancestralidade e diáspora.

Sua produção conecta referências brasileiras e da África Ocidental e transita por afro-jazz, improvisação, ritmos beninenses, matrizes afro-brasileiras e experimentação sonora.

Entre os conceitos que orientam sua pesquisa estão a partitura corporal, baseada na transmissão por corpo, movimento, sensação e memória, e a música manifestação, utilizada pela artista para definir processos nos quais a obra é percebida antes de ser racionalmente construída como produto musical.

Sarahysha também está à frente do SB LAB SP BR, laboratório de experimentação e pesquisa no qual desenvolve encontros entre artistas, linguagens e tradições musicais de diferentes territórios.

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