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Inclusão começa na infância e amplia caminhos para o desenvolvimento e para a autonomia

há 5 dias
4 min de leitura

Garantir que uma criança com deficiência ou neurodivergente esteja na escola, frequente uma praça, participe de uma festa de aniversário ou tenha acesso a outros espaços de convivência é uma conquista importante. Contudo, estar presente fisicamente não significa, necessariamente, estar incluída. A inclusão de verdade começa quando a criança deixa de ser apenas alguém que ocupa aquele espaço e passa a participar dele, dentro de suas possibilidades, com suas preferências, necessidades e formas próprias de se comunicar.

Essa mudança na forma de olhar é importante porque, durante muito tempo, a inclusão foi associada principalmente ao acesso. Matricular a criança na escola, permitir sua entrada em um ambiente público ou oferecer atendimento especializado são medidas fundamentais, mas representam apenas parte do processo. O desafio maior está em criar condições para que ela consiga interagir, fazer escolhas, desenvolver habilidades e perceber que também tem um papel naquele ambiente.

A fonoaudióloga Juliana Menezes, diretora técnica da Affect Centro Clínico e Educacional, clínica especializada no acompanhamento de crianças com deficiência, neurodivergentes e com doenças raras, em Goiânia, explica que, na prática, a construção da autonomia começa muito antes de grandes decisões e está presente nas atividades mais comuns da rotina familiar.

“Escolher uma roupa, guardar os brinquedos, participar do banho ou opinar sobre uma refeição são experiências simples que ajudam a criança a perceber que suas escolhas têm valor. Entretanto, quando o adulto faz por ela aquilo que poderia realizar com algum apoio, reduz oportunidades importantes de experimentar, aprender, desenvolver habilidades e ganhar confiança”, destaca.

Segundo Juliana, quando a criança recebe, dentro de suas atividades diárias, mais tempo, incentivo e ferramentas adequadas para participar, começa a construir uma percepção mais positiva sobre suas próprias capacidades.

“Um dos principais equívocos é confundir autonomia com independência absoluta. Ser autônomo não significa, necessariamente, fazer tudo sozinho. Significa, dentro das possibilidades de cada um, conseguir participar de decisões, expressar preferências, iniciar ações e exercer algum controle sobre aspectos da própria vida”, explica.

Para a fonoaudióloga, recursos visuais, formas alternativas de comunicação, adaptações físicas e rotinas estruturadas são tão importantes quanto instruções mais claras e a presença de um adulto para auxiliar quando necessário.

“Não é apenas perguntar o que a criança consegue fazer sozinha, mas também o que ela consegue fazer quando recebe o suporte adequado. Essa diferença muda completamente a maneira de enxergar o desenvolvimento. Em vez de concentrar a atenção exclusivamente nas limitações, passa-se a observar quais barreiras estão impedindo a participação e quais estratégias podem ser utilizadas para reduzi-las”, observa.

A psicopedagoga Taciana Faria, da equipe multiprofissional da Affect, lembra que o papel da família tem muita relevância nesse processo. O excesso de proteção pode nascer de uma boa intenção, mas, quando se torna permanente, pode limitar experiências importantes para o desenvolvimento.

“Estimular a autonomia exige equilíbrio. Significa oferecer segurança sem controlar cada passo e ajudar sem retirar da criança a oportunidade de participar. Tanto em casa quanto na escola, o princípio é semelhante. A presença em sala de aula é essencial, mas a inclusão não estará completa se a criança permanecer isolada, não conseguir acompanhar as atividades com os apoios necessários ou não tiver oportunidades reais de interação com os colegas. Uma escola inclusiva precisa pensar não apenas em onde a criança está, mas em como ela participa das experiências oferecidas aos demais alunos”, comenta.

Taciana reforça que o mesmo entendimento se aplica aos espaços públicos e à convivência social. Uma criança incluída não deve ser apenas aquela que consegue entrar em um restaurante, frequentar um parque ou participar de uma comemoração.

“É preciso considerar se ela consegue permanecer naquele ambiente, comunicar desconfortos e preferências, interagir, brincar, escolher atividades e ser respeitada em suas particularidades. Essa visão também muda a forma de avaliar os resultados das intervenções. O desenvolvimento não deve ser medido apenas pela aquisição de habilidades isoladas. Aprender determinada tarefa é importante, mas o verdadeiro impacto aparece quando aquela habilidade passa a ter utilidade na vida cotidiana”, acrescenta.

Formação profissional amplia olhar sobre inclusão

Neste mês, a fonoaudióloga Juliana Menezes, responsável técnica pela Affect Centro Clínico e Educacional, estará na Universidad de Salamanca, na Espanha, para uma formação presencial voltada à ampliação de conhecimentos e ao acompanhamento de discussões acadêmicas internacionais relacionadas ao desenvolvimento, à inclusão e à qualidade de vida.

A experiência, segundo Juliana, também permite aprofundar o contato com o conceito de autodeterminação, que ocupa espaço relevante nas discussões sobre deficiência e qualidade de vida. A ideia é reconhecer que toda pessoa deve ter oportunidades de fazer escolhas e exercer algum controle sobre a própria trajetória, considerando os apoios de que necessita.

“Nesse modelo, o apoio deixa de ser visto como sinal de incapacidade e passa a ser compreendido como uma ferramenta para ampliar participação e autonomia. Essa visão está presente em pesquisas e práticas desenvolvidas por instituições de referência internacional, como o INICO (Instituto Universitario de Integración en la Comunidad), ligado à Universidad de Salamanca, na Espanha, que desenvolve estudos relacionados à inclusão, qualidade de vida, autodeterminação e sistemas de apoio para pessoas com deficiência”, sublinha.

Para a fonoaudióloga, aproximar o conhecimento científico internacional da realidade das crianças e famílias brasileiras contribui para fortalecer práticas que tenham como objetivo não apenas o desenvolvimento de habilidades, mas também a funcionalidade, a participação social, a autonomia e a qualidade de vida ao longo de todo o desenvolvimento.

“Incluir não é apenas permitir que uma criança esteja em determinado ambiente. É criar condições para que ela participe, faça escolhas, desenvolva suas potencialidades e construa, dentro de suas possibilidades e com os apoios necessários, uma vida com mais autonomia e qualidade. A verdadeira inclusão acontece quando a sociedade passa a enxergar a criança não apenas pelo que ela precisa de ajuda para fazer, mas também pelo que pode escolher, aprender, comunicar e construir quando recebe os apoios adequados”, completa.


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