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LUME Teatro celebra 40 anos com “KINTSUGI, 100 memórias” no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília

  • há 46 minutos
  • 8 min de leitura

O que fazer com os fragmentos do que se quebrou? Como lidar com as memórias que preferíamos esquecer? O LUME Teatro apresenta o espetáculo “KINTSUGI, 100 memórias” no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília. A obra, que celebra os 40 anos do grupo paulista (fundado em 1985), une o pessoal e o político em uma dramaturgia autoficcional e fragmentária, com direção do argentino Emilio García Wehbi (do grupo El Periférico de Objetos) e dramaturgia do carioca Pedro Kosovski, vencedor dos principais prêmios de artes cênicas do país, incluindo Shell e APCA.

 

A temporada acontece de 4 a 14 de junho de 2026, de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 18h (com exceção na semana de jogos da Copa, quando a sessão de sábado será transferida para quarta-feira, 10/6, às 20h), no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil Brasília. Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Haverá sessões com tradução em Libras.

 

Associado à temporada, o Lume irá oferecer o curso gratuito “Treinamento Técnico para Atuadores”, sob a orientação de Jesser de Souza de 4 a 7 de junho (quinta a domingo), das 10h às 13h. Serão 24 vagas e as inscrições estarão abertas de 5 a 25/5, via preenchimento do formulário https://forms.gle/yWtuqRkNmPqStdcm9. A lista de selecionados será divulgada dia 27/5.

 

O workshop oferece uma visão geral do treinamento cotidiano sistematizado pela equipe de atrizes e atores-pesquisadores do LUME. Através de metodologias concretas, o workshop aborda temas fundamentais do trabalho de atuação: ética (autodisciplina e autonomia); preparação e prontidão (aquecimento do corpo-mente e presença); reconhecimento e dilatação das capacidades expressivas do corpo, aspectos energéticos e técnicos do ofício (transformação do peso em energia, dinâmica das ações no espaço e no tempo, articulações e segmentação corporal, modulação da energia, jogo entre atuadores).

 

 

A beleza da imperfeição: o Kintsugi como metáfora central

 

Kintsugi, em japonês, significa literalmente “emenda com ouro”. Filosoficamente, representa “a beleza da imperfeição”: a técnica consiste em reparar cerâmicas quebradas com uma mistura de laca e pó de ouro, tornando a peça restaurada mais valiosa e resistente do que a original que não sofreu rupturas.

 

Essa metáfora está no cerne do espetáculo. Logo na primeira ação em cena, os atores fazem um brinde e, em seguida, um vaso de cerâmica é estilhaçado no palco. A ação cobra dos artistas uma tomada de posição: de que modo juntar os fragmentos daquilo que um dia representou um contorno estável que os uniu enquanto grupo durante tantos anos?

 

A peça propõe, então, uma ressignificação positiva da ruptura: assim como o Kintsugi transforma fraturas em ornamentos dourados, “KINTSUGI, 100 memórias” busca iluminar cicatrizes individuais e coletivas – do Brasil da ditadura à redemocratização, passando por memórias pessoais e do próprio grupo – para torná-las mais valiosas do que a integridade que nunca se quebrou.

 

Como resume o dramaturgo Pedro Kosovski: “A peça propõe uma utopia do mover-se, não estagnar: a vida é movimento; nesse sentido, acontece a restauração do desejo de estarmos juntos na diferença.”

 

 

Da pesquisa sobre o Alzheimer à metáfora do esquecimento político

 

O ponto de partida da pesquisa foi a Doença de Alzheimer. Um dado publicado em revista sobre o povoado de Angostura, na Colômbia – onde mais de 12% dos cerca de 12 mil habitantes apresentam uma mutação genética que leva a um tipo raro e precoce da doença – despertou a curiosidade do grupo.

 

Durante vários meses, os atores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini visitaram a ala neurológica do Hospital das Clínicas da UNICAMP, conversando com especialistas, familiares e pacientes com demência. Era 2018, “época em que o Brasil mergulhava em um momento de apagamento histórico, obscurantismo e irracionalidades políticas”, contextualiza Renato Ferracini.

 

O grupo, então, expandiu a patologia para o campo social. Ao tratar o Alzheimer mais como metáfora do que como doença, os artistas passaram a investigar o esquecimento por opção: aquelas sombras que queremos deixar quietas, as memórias que machucam e preferimos não tocar. Vasculharam também, além do esquecimento provocado pela doença, o apagamento da memória como projeto político – algo que se reflete na irracionalidade política do país.

 

Segundo o ator Jesser de Souza: “Reconhecimento e acolhimento são os primeiros passos para viabilizar a reparação, a reconstrução daquilo que um dia foi íntegro e cujos contornos se apresentavam bem delineados e intactos.”. Alinhavando-se a isso, o diretor argentino Emilio García Wehbi, convidado para conduzir a construção da cena, trouxe questões como: seria essa política obscura fruto de uma doença degenerativa ou de uma ação manipulada e calculada? Quais lembranças queremos esquecer ou sequer tocar?

 

 

A música como fagulha de memória – um destaque especial

 

Um dos aspectos mais singulares do espetáculo é o tratamento dado à música. Estudos científicos comprovam que canções antigas e conhecidas conseguem driblar o hipocampo – primeira área do cérebro afetada pelo Alzheimer – ativando áreas emocionais e motoras preservadas, promovendo o resgate da identidade pela via do afeto e da sensibilidade, não da memória concreta e objetiva.

 

Inspirados por essa descoberta, os músicos e pesquisadores Janete El Haouli e José Augusto Mannis criaram um verdadeiro “bordado sonoro” para “KINTSUGI, 100 memórias”. A partir de releituras eletroacústicas dos Noturnos de Chopin, na interpretação de Brigitte Engerer, eles manipularam timbres, criaram colagens e sobreposições, explorando texturas que se sobrepõem ao espetáculo como uma obra à parte. O resultado é um “vapor de som” com a potência de despertar lembranças tanto nas atrizes e atores quanto em cada espectador.

 

Como explica Renato Ferracini: “A música e a projeção acústica buscam criar pontes entre elenco e plateia, entre a autoficção apresentada e as memórias eventualmente revisitadas, criando um bordado sonoro que conduz o espectador em uma jornada.”

 

Esse desenho sonoro, que age como uma fagulha para acionar afetos e memórias perdidas, está em sintonia com a encenação, a dramaturgia, a interpretação e a iluminação, elevando a energia de reflexão e convidando o público à contemplação.

 

 

Autoficção, memórias e objetos em cena

 

No palco, o público se depara com uma obra autoficcional e desconstruída, sem narrativa linear. São apresentadas 100 memórias – do grupo LUME, individuais bem como sociais – materializadas em objetos, que resistiram ao tempo: relíquias de família, fotografias, diários, uma coleção de moedas, revistas e peças de roupa. Itens, que servem de suporte para as lembranças dos intérpretes e da história do Brasil, desde a ditadura à atualidade.

 

A atriz Raquel Scotti Hirson resume: (desses objetos) “Nasceram os fios dessa trama ancorada no trinômio memória-esquecimento-apagamento, engenhosamente engendrados por Kosovski e potencializados pela encenação de Wehbi.”. E Ana Cristina Colla, também atriz, complementa: “As memórias apresentadas buscam revelar cicatrizes, escancarar fissuras, expor as imperfeições que nos constituem, promovendo sua reparação. Somente após deitarmos nosso olhar sobre a imperfeição é que podemos agir sobre ela, restaurando-a e transformando-a em algo mais valioso que o perfeito que não experimentou a ruptura.”

 

Apesar do momento político sombrio que o país atravessava no início da criação (2016), e dos ecos de uma frágil democracia resgatada em 1985 – mesmo ano de fundação do LUME –, o espetáculo escolhe a resistência pela arte. Como define Pedro Kosovski: “KINTSUGI, 100 memórias é um gesto de resistência e utopia que nos faz seguir em frente. A arte é transformadora, e é nisso que o LUME acredita.”

 

 

Sobre o LUME Teatro

 

“... Trabalhar o ator é, sobretudo e antes de mais nada, preparar seu corpo não para que ele diga, mas para que ele permita dizer. A arte de ator é uma viagem para dentro de nós mesmos, um reatar contato com recantos secretos, esquecidos, com a memória. A verdadeira técnica da arte de ator é aquela que consegue esculpir o corpo e as ações físicas no tempo e no espaço, acordando memórias, dinamizando energias potenciais e humanas, tanto para o ator quanto para o espectador.” – Luís Otávio Burnier (1956–1995), fundador do LUME.

 

 

O LUME é um núcleo interdisciplinar de pesquisas teatrais da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) e, ao mesmo tempo, é um coletivo de três atrizes, quatro atores e uma equipe técnica e administrativa diversificada, que se tornou referência internacional para artistas e pesquisadores no redimensionamento técnico e ético do ofício de ator. Um espaço de multiplicidade de visões que refletem as diferenças, impulsos e sonhos de cada um.

 

Ao longo de mais de 40 anos, tornou-se conhecido em mais de 30 países, tendo atravessado quatro continentes, desenvolvendo parcerias especiais com mestras e mestres da cena artística nacional e mundial. Criou mais de 20 espetáculos e mantém 14 em repertório, com os quais atinge públicos diversos de maneiras não-convencionais. Com sede no Distrito de Barão Geraldo, Campinas (SP), o grupo difunde sua arte e metodologia por meio de oficinas, demonstrações técnicas, intercâmbios de trabalho, projetos itinerantes, trocas culturais, assessorias, simpósios acadêmicos, reflexões teóricas e publicações de livros, que celebram o teatro como a arte do encontro.

 

 

 

Acessibilidade CCBB

 

A ação Vem pro CCBB conta com uma van que leva o público, gratuitamente, para o CCBB Brasília. A iniciativa reforça o compromisso com a democratização do acesso e a experiência cultural dos visitantes.

 

A van fica estacionada próxima ao ponto de ônibus da Biblioteca Nacional. O acesso é gratuito, mediante retirada de ingresso, no site, na bilheteria do CCBB ou ainda pelo QR Code da van. Lembrando que o ingresso garante o lugar na van, que está sujeita à lotação, mas a ausência de ingresso não impede sua utilização. Uma pesquisa de satisfação do usuário pode ser respondida pelo QR Code que consta do vídeo de divulgação exibido no interior do veículo.

 

Horários da van, de quinta a domingo:

Biblioteca Nacional – CCBB: 13h, 14h, 15h, 16h, 17h, 18h, 19h e 20h

CCBB – Biblioteca Nacional: 13h30, 14h30, 15h30, 16h30, 17h30, 18h30, 19h30, 20h30 e 21h30

 

 

O CCBB Brasília

 

O Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (CCBB Brasília) foi inaugurado em 12 de outubro de 2000. Sediado no Edifício Tancredo Neves, uma obra arquitetônica de Oscar Niemeyer, tem o objetivo de reunir, em um só lugar, todas as formas de arte e criatividade possíveis.

 

Com projeto paisagístico assinado por Alda Rabello Cunha, dispõe de amplos espaços de convivência, galerias de artes, sala de cinema, teatro, praça central e jardins, onde são realizados exposições, shows musicais, espetáculos, exibições de filmes e performances.

 

Além disso, oferece o Programa Educativo CCBB Brasília, projeto contínuo de arte-educação, que desenvolve ações educativas e culturais para aproximar o visitante da programação em cartaz, acolhendo o público espontâneo e, especialmente, estudantes de escolas públicas e particulares, universitários e instituições, por meio de visitas mediadas agendadas.

 

Em 2022, o CCBB Brasília se tornou o terceiro prédio do Banco do Brasil a receber a certificação ISO 14001, cuja renovação anual ratifica o compromisso da instituição com a gestão ambiental e a sustentabilidade.

 

Sinopse:

 

"Kintsugi – 100 memórias" é uma obra que celebra a beleza da imperfeição e a força das cicatrizes transformadas em ouro. Inspirada na técnica japonesa Kintsugi, que restaura cerâmicas quebradas com traços dourados, a peça constrói um inventário de 100 memórias pessoais e coletivas no palco. Histórias íntimas se revelam, convidando o público a refletir sobre o que permanece em nós e sobre o valor das lembranças, mesmo quando dolorosas. A pesquisa sobre o Alzheimer vem como ponto de partida para tratar de memória, apagamento e superação. O espetáculo é um convite poético para descobrir como nossas marcas e recordações podem se tornar preciosas, revelando a beleza que nasce da imperfeição.

 

Serviço:

 

Espetáculo “KINTSUGI, 100 memórias” – LUME Teatro

Gênero: autoficção

Local: Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil Brasília

Endereço: SCES Trecho 2 Lote 22 – Edif. Presidente Tancredo Neves

Temporada: de 4 a 14 de junho de 2026

Dias e horários: de quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h (na semana de jogos da Copa, a sessão de sábado acontecerá excepcionalmente na quarta-feira (10/6), às 20h)

Ingresso: R$ 30 (inteira), e R$ 15 (meia para estudantes, professores, profissionais da saúde, pessoa com deficiência e acompanhante, quando indispensável para locomoção, adultos maiores de 60 anos e clientes Ourocard), à venda no site www.bb.com.br/cultura e na bilheteria física do CCBB Brasília, a partir das 12h de 30 de maio.

Duração: 120 minutosClassificação indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

CCBB Brasília: aberto de terça a domingo, das 9h às 21h

Informações: fone: (61) 3108-7600 | e-mail: ccbbdf@bb.com.br | site/ bb.com.br/cultura | Instagram/ @ccbbbrasilia | Tiktok/@ccbbcultura  | YouTube/ Bancodobrasil


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