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O combate ao crime que ninguém vê: por que a investigação criminal é a verdadeira arma contra a impunidade

  • há 9 horas
  • 4 min de leitura

Quando se fala em segurança pública, a imagem mais comum é a de policiais nas ruas e viaturas em patrulhamento. No entanto, o especialista alerta que uma parte essencial do combate à criminalidade acontece longe dos holofotes: nas delegacias, nos setores de inteligência, na perícia e nas investigações responsáveis por identificar autores, reunir provas e desarticular organizações criminosas.

Os números reforçam a importância desse trabalho. O Brasil registrou redução de 16,2% nos casos de homicídios dolosos, no triênio de 2023/2026, em comparação com 2019/2022. Foram 34.758 registros, contra 41.485 do período anterior, segundo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre os fatores para a queda, também refletida nos dados coletados desde 2016, está o fortalecimento das ações de inteligência e investigação criminal no enfrentamento das organizações criminosas e o aumento da eficiência da persecução penal.

Para o especialista em Segurança Pública André Pereira, a população costuma enxergar apenas a face mais visível da atuação policial.

"O policiamento ostensivo, a viatura na rua com o giroflex ligado, é fundamental. Ele traz a sensação imediata de segurança e atua na contenção do crime de oportunidade. Falo isso com a propriedade de quem começou a carreira na linha de frente, como soldado da Polícia Militar. Sei o valor da presença física da polícia. No entanto, o policiamento nas ruas trata o sintoma; a investigação criminal trata a doença."

Segundo ele, o trabalho investigativo é o verdadeiro alicerce do combate ao crime organizado.

"A maioria das pessoas só vê o resultado final: a operação na rua, o criminoso preso e a notícia na TV. Mas o que quase ninguém enxerga é o enorme trabalho que acontece muito antes disso. A investigação é o cérebro do sistema. Enquanto a patrulha tenta evitar o crime de hoje, a investigação criminal — conduzida pela Polícia Civil sob a presidência do Delegado de Polícia — desmantela a estrutura que planejou o crime de ontem e que praticará o crime de amanhã. É uma ferramenta estratégica porque não foca apenas no executor da ponta, mas sim na cadeia de comando, no fluxo financeiro e na logística das organizações criminosas."

O avanço tecnológico também transformou a forma como as organizações criminosas atuam, tornando indispensáveis investimentos em inteligência policial, análise de dados e estrutura para as equipes responsáveis pelas investigações.

Na avaliação do especialista, combater o crime organizado exige planejamento e capacidade técnica.

"Em segurança pública, o improviso não vence o crime organizado. Exige-se estrutura, método e ciência. Segurança pública não é apenas força e correria na rua. É, principalmente, técnica, estratégia, muito preparo, investigação e inteligência. Investir em inteligência policial significa parar de 'dar tiro no escuro' e passar a operar com precisão cirúrgica."

Ele destaca que grandes operações policiais são resultado de um trabalho silencioso, que muitas vezes leva meses ou anos.

"Por trás de cada grande operação, existem meses — e até anos — de dedicação silenciosa. É um trabalho de muita persistência que envolve a análise minuciosa de informações para entender a dinâmica dos crimes, o cruzamento de dados para descobrir ligações escondidas, o uso da inteligência para antecipar os passos dos criminosos e a coleta de provas incontestáveis."

Segundo André Pereira, a tecnologia é indispensável, mas precisa estar acompanhada da valorização dos profissionais responsáveis pela investigação.

"As organizações criminosas hoje operam com tecnologia de criptografia e lavagem de dinheiro sofisticada. Para enfrentá-las, o Estado deve fornecer softwares de interceptação e análise de vínculos, laboratórios modernos e peritos integrados com as investigações. Mas a tecnologia sozinha é apenas a ferramenta. Quem faz a máquina girar é o operador. Valorizar e fortalecer a Polícia Civil é reconhecer o esforço invisível de milhares de profissionais — delegados, investigadores, escrivães, agentes, peritos e os integrantes de todas as carreiras — que trabalham dia e noite, em silêncio, para proteger a sua família. Esse aperfeiçoamento, por meio de valorização, estrutura e gestão eficiente, é a única garantia de termos equipes motivadas para produzir os inquéritos que reduzem drasticamente a impunidade."

Para o especialista, fortalecer a chamada "segurança pública invisível" depende de mudanças estruturais e de uma nova forma de avaliar as políticas públicas voltadas à segurança. Ele defende que esse fortalecimento esteja baseado em três pilares. O primeiro é o equilíbrio dos recursos destinados às instituições policiais. O segundo, integração entre as instituições.

"É urgente romper o isolamento institucional. As polícias estaduais, federais e os órgãos de fiscalização financeira, como o COAF, devem cruzar dados em tempo real. A inteligência policial só é plena quando o dado circula rápido entre os técnicos que detêm as informações e quem investiga."

Por fim, André Pereira aponta a necessidade de modernizar a legislação processual.

"É necessário desburocratizar o inquérito policial e reformar o processo penal, transformando-os em instrumentos dinâmicos e focados na colheita de provas técnicas e cibernéticas. O modelo atual é arcaico, lento e refém de formalismos."

Fonte: André Santos Pereira - Delegado de Polícia do Estado de São Paulo, especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública (Escola Superior de Direito Policial/FCA), ex-presidente da ADPESP – Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo e diretor de Estudos e Propostas Legislativas da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (ADEPOL-BR).

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