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Um salão de inspirações para a indústria da moda

Mais do que negócios, o INSPIRAMAIS, historicamente, traz conteúdos relevantes para a reflexão da cadeia produtiva da moda. Na edição 33, realizada entre os dias 27 e 28 de janeiro, no Centro de Eventos FIERGS, não foi diferente. Ao longo dos dois dias de evento, foram realizadas 12 palestras sobre moda, design, sustentabilidade e Inteligência Artificial e seus impactos no setor. As apresentações aconteceram na Arena de Inovação, que nesta edição foi patrocinada pela Kisafix e apoiada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

 

Uma das palestras mais procuradas do INSPIRAMAIS, como de praxe, foi a apresentação que detalhou a pesquisa The Turning Point, que deu origem aos mais de mil materiais inovadores lançados no salão. Na oportunidade, o coordenador do Núcleo de Design e Pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Walter Rodrigues, iniciou sua apresentação detalhando a metodologia da Pirâmide, que norteia a pesquisa de lançamentos do salão de moda e leva em consideração os insights dos 10% (laboratório de inovação e topo da pirâmide), 30% (materiais em desenvolvimento no meio da pirâmide) e 60% (produtos já aprovados pelo mercado e base da pirâmide). Fazendo parte dos 10%, a The Turning Point tem como referência a obra “Ponto de Mutação”, escrita por Fritjof Capra em 1981. Segundo Rodrigues, “vivemos tempos muito semelhantes aos vividos na década de 1980, com um mundo mais fechado, protecionismo crescente, tarifas extras e polarização”. A obra referenciada traz a necessidade de um ponto de mutação sob uma perspectiva ecológica e feminina.

 

Modernidade “gasosa”Dentro do contexto, a pesquisa aponta que passamos de uma Modernidade Líquida, conceito popularizado por Bauman no qual tudo era líquido e fluído, para uma Modernidade Gasosa, em que as coisas já não apenas fluem, mas “evaporam no ar”, dando a ideia de volatilidade e velocidade. Partindo desse ponto, a The Turning Point traz três temas. O primeiro deles é o “Gasoso Holístico”, que com um ponto de vista feminino aponta o design como meio de contemplação, regeneração e afeto com tecnologia. A moda, aqui, é auxiliada pelas tecnologias de Inteligência Artificial (IA). Neste tema, predominam materiais com transparências, tules, nylons, volumes e misturas. Já o tema “Gasoso Biológico” é influenciado pelo ancestral digital, com texturas orgânicas, muitas camadas, aspectos celulares (de plasma), aspectos gelatinosos, amorfismo e futurismo, tudo também com o auxílio da IA. Já os materiais de destaque são biopolímeros, nanoceluloses e tecidos desenvolvidos com cultura de bactérias. O terceiro tema é Ruptura, que reforça a necessidade de romper com os padrões, com as formas conservadoras, visando a recuperação da individualidade perdida em meio a um mundo homogêneo e permeado de repetições. Para as criações de materiais, as influências predominantes são as construções tridimensionais, com dobras abruptas, sobreposições e fragmentações, colocando o corpo como base para a criação de novas geometrias. A cartela de cores da The Turning Point traz como cores principais o violeta ice, o amarelo e o acqua.

 

Bioma AmazônicoNo segundo dia do evento, chamaram a atenção do público duas palestras. A primeira delas foi a que detalhou o projeto Iconografia Local Bioma Amazônico, lançado na COP30, em novembro passado. Para essa apresentação, Walter Rodrigues recebeu a companhia do designer de moda Leandro Castro, que desfilou o projeto nas passarelas do São Paulo Fashion Week (SPFW).

A iniciativa, realizada nos territórios de Santarém, distrito de Alter do Chão, Belterra e Mojuí dos Campos, desenvolveu uma pesquisa territorial aprofundada com foco na identidade local. A investigação contemplou elementos como agricultura familiar, turismo, artesanato, gastronomia, música, madeira, castanhas, pesca (pirarucu), óleos essenciais, ciência/medicina natural, biomateriais, entre outros aspectos da cultura local. A partir dos insumos criativos da pesquisa, a Assintecal auxiliou 19 empreendimentos locais no desenvolvimento de produtos e serviços com identidade territorial, valorizando e estimulando a bioeconomia local.

 

Segundo Rodrigues, a pesquisa serviu como base para desenvolvimento de coleções inovadoras. No total, foram desenvolvidos mais de 80 novos materiais e soluções das empresas Amazoniere, Amélias da Amazônia, Biojoias Natureza Viva, Chácara Nova Esperança, Casa do Eltom, Coomflona – Cooperativa Mista da Flona Tapajós, Cuias Aíra – Associação das Artesãs Ribeirinhas de Santarém (Asarisan), Deveras Amazônia, Escola Indígena Borari Antônio de Sousa Pedroso, Etno Confecções Borari – Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós, H Móveis Madeira, Quintal Produtivo Belt Bom, Loja Zagaia, Mestre Jefferson Paiva, Nunghara Biojoias, Pousada do Mingote, Quilombo de Murumurutuba – Rafro Modas, Quilombo de Murumurutuba – Azearte, Trançados do Arapiuns e Viveiro Floresta Ardosa. Os materiais estavam expostos no evento (solicite imagens).

 

SpoilerOutro momento importante do salão foi a apresentação da pesquisa Essência, que terá seus materiais lançados na próxima edição do INSPIRAMAIS, nos dias 7 e 8 de julho, em São Paulo/SP. Para a apresentação, Walter Rodrigues recebeu a companhia de Marnei Carminatti, coordenador do Preview do Couro do Salão.

O ponto de partida da pesquisa é repensar o conceito de luxo, cada vez mais ameaçado pela competição baseada em preços. Segundo Rodrigues, existe um descolamento entre preço e valor percebido, gerando questionamentos por parte dos consumidores. “Isso obriga as grandes marcas a ressignificar a palavra e justificar a sua existência”, ressalta. Com isso, aparece a essência como uma retórica inegável. É preciso resgatar a importância do luxo como aspecto de raridade, herança histórica e autoridade cultural.

 

O primeiro tema da pesquisa é o Purismo, que valoriza o silêncio, a pausa em meio ao excesso e a ancestralidade, em um “retorno ao essencial”. Entre os materiais, aparecem com destaque os acetinados, os couros limpos, os laços, as peles exóticas e a impressão sobre couro vacum, sempre com aspectos que remetem à leveza, à alta costura, ao classicismo e à delicadeza. “Aparece muito forte também a camurça, trazendo o seu toque suave, o brilho delicado, os metalizados e o croco”, acrescenta Rodrigues.

 

O segundo tema é o Popismo, que celebra o “excesso com intenção”. “É o luxo que se afirma no exagero, na intensidade da cor e na força das estampas”, informa o criativo, destacando que os materiais desenvolvidos são inspirados no barroco e na cultura pop, com muita sinuosidade, teatralidade e estímulo sensorial. “Se o purismo valoriza a pausa, o popismo reivindica a intensidade. É capital cultural em ebulição, uma mistura de referências que resgata arquivos, cria abundância e ludicidade”, acrescenta. Entre as referências, aparecem o estampismo com flores, referências à natureza e cores mais intensas. A cartela de cores é composta, principalmente, por tons de cobre, vermelho e verde.

 

O salãoO INSPIRAMAIS é uma uma realização da Assintecal em parceria com o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e Associação Brasileira das Indústrias de Mobiliário (Abimóvel). A realização é do Brazilian Materials e a parceria do Sebrae Nacional. O apoio institucional é da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Rio Grande do Sul (Senai/RS). A parceria institucional é da da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

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