Ópera “Leopoldina”, de Jorge Antunes, busca estreia no Theatro Municipal de São Paulo em 2026 ou 2027
- Rodrigo Carvalho
- há 22 minutos
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No ano em que se completam 200 anos da morte de Leopoldina de Habsburgo, figura essencial na independência do Brasil, uma obra lírica contemporânea brasileira busca seu lugar no principal palco operístico do país. Composta pelo renomado maestro e compositor Jorge Antunes, a ópera “Leopoldina” une história, crítica social e linguagem musical inovadora, propondo um diálogo entre o passado imperial e o Brasil do século XXI.
A obra, escrita entre 2020 e 2021 em Paris, durante residência artística na Cité Internationale des Arts com o apoio do Prêmio Icatu de Artes, narra de forma não linear a vida da imperatriz Leopoldina — desde seu casamento por procuração com D. Pedro de Bragança, sua atuação decisiva no processo de independência, até seu trágico fim aos 29 anos. Com libreto de Gerson Valle, a trama intercala cenas do século XIX com a preparação de um desfile de escola de samba no presente, criando um contraponto entre a história oficial e as reflexões sobre justiça social, machismo e poder.
Jorge Antunes, um dos nomes mais relevantes da música contemporânea brasileira, com trajetória reconhecida internacionalmente, emprega uma linguagem eclética que vai do modalismo ao neotonalismo, passando por ritmos brasileiros como o samba e o lundu. A orquestração inclui ainda sons eletrônicos e instrumentos como cavaquinho e violão, reforçando a fusão entre tradição e vanguarda.
Apesar de pronta desde 2021, a ópera ainda não foi encenada. “Infelizmente, ainda há um grande preconceito contra a ópera moderna no Brasil — e contra meu nome, considerado por muitos ‘polêmico’ ou ‘subversivo’. Mas ‘Leopoldina’ não é apenas uma obra sobre o passado; é um espelho sonoro das contradições do Brasil de hoje. Negar sua encenação é calar uma voz que fala de independência, de mulheres no poder e da luta por justiça social.”, avalia o maestro
Agora, um abaixo-assinado online criado em dezembro de 2025 já reúne mais de 800 assinaturas, incluindo personalidades como Cristóvam Buarque, o maestro Júlio Medaglia, Anita Leocádio Prestes, o pianista Arnaldo Cohen, a compositora Ilza Nogueira, presidente da Academia Brasileira de Música, e consagrados diretores de ópera como Mauro Wrona, Cleber Papa, Fernando Bicudo e William Pereira.
O momento é estratégico: a gestão do Theatro Municipal de São Paulo passa por renovação, e o novo edital exige a apresentação de “uma ópera de compositor brasileiro, histórica ou contemporânea”. “Leopoldina” se encaixa perfeitamente nesse perfil. “Em 2026 completam-se 200 anos da morte de Leopoldina. Que melhor momento para uma ópera que une história, samba e vanguarda? Com a renovação da gestão do Theatro Municipal de São Paulo, temos a chance única de mostrar que a ópera brasileira contemporânea é viva, potente e necessária. ‘Leopoldina’ está pronta para ecoar no palco que o país inteiro ouve.”, ressalta Jorge Antunes
A obra está disponível para consulta, com partitura, libreto e gravação da abertura, no site operaleopoldina.com.br. O abaixo-assinado pode ser acessado em https://c.org/66bF7Cb8rh.
Em um país que frequentemente revisita seus mitos fundadores, “Leopoldina” oferece uma reflexão sonora e dramática necessária — sobre mulheres no poder, sobre as contradições da história e sobre a utopia de um Brasil ainda por se fazer. Sua encenação seria mais que um espetáculo: um ato de reconhecimento à força da arte brasileira para narrar a si mesma.
A ópera “Leopoldina” apresenta um libreto de estrutura não linear, que mescla passado e presente para contar a história da imperatriz Leopoldina de Habsburgo e refletir sobre o Brasil contemporâneo
Em linhas gerais, a narrativa se desenvolve em dois planos temporais:
Século XIX – Acompanha a trajetória de Leopoldina, desde seu casamento por procuração com D. Pedro em Viena (1817), sua mudança para o Rio de Janeiro, seu envolvimento político decisivo para a Independência do Brasil (ela assina o decreto de separação de Portugal em 2 de setembro de 1822), até seu sofrimento pessoal com a relação do imperador com Domitila (Marquesa de Santos), seu aborto e morte precoce aos 29 anos.
Século XXI – Uma escola de samba, Unidos dos Sambaquis, prepara um desfile em homenagem a Leopoldina. A narrativa intercala ensaios, discussões entre o historiador, o compositor, o letrista e a cenógrafa da escola, que comentam e reinterpretam a história. No final, a professora Dina, líder comunitária ameaçada por milícias, desfila fantasiada de Leopoldina e, ao ser entrevistada, funde sua voz com a da imperatriz numa ária que denuncia injustiças sociais, machismo, violência e a persistência de opressões no Brasil atual.
Pontos estruturais marcantes:
A abertura ocorre num baile em Viena, com duas orquestras em contraponto (uma em cena tocando valsas, outra no fosso acompanhando os cantos).
Cenas de ritual, como um lundu dançado por escravos, e depois sambas, funcionam como comentário crítico.
A independência é representada de forma plural: além do Grito do Ipiranga, há cenas com as cartas de Leopoldina, os debates com José Bonifácio, e até uma alegoria com crianças (“Deuses Curumins”) que brincam de guerra, simbolizando ciclos de violência.
O terceiro ato mostra a decadência do casamento imperial, a influência de Domitila, a demissão de José Bonifácio e a morte de Leopoldina.
O desfile da escola de samba em ritmo de marcha-rancho (samba fúnebre) liga o luto histórico à realidade atual, com a professora Dina dando voz a um manifesto de esperança e resistência.
O libreto encerra com um coro cantando:
“Mas, o tempo chegará! / Tudo se mexe em mudança / no grande país mestiço. / Renasce em nós a esperança!”
Em resumo, o libreto não é apenas uma biografia musicada, mas um discurso sobre memória, poder, gênero e identidade nacional, utilizando a ópera e o samba como formas de questionamento político e artístico.






