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Exposição "Corpo-coisa-planta-bicho" instaura diálogo sensível entre cerâmica e arte contemporânea em Brasília

Em um cenário onde a cerâmica contemporânea ainda é rara no circuito artístico de Brasília, a exposição "Corpo-coisa-planta-bicho" se apresenta como um marco reflexivo e sensível. Com obras de Isabel Se Oh e Rodrigo Machado, a mostra utiliza o barro não como fim, mas como ponto de partida para um debate sobre as delimitações porosas entre o humano, o animal, o vegetal e o objeto. A curadoria propõe um exercício de escuta e percepção, convidando o público a reconhecer as várias naturezas que coexistem dentro e fora de si.

 

Corpo-coisa-planta-bicho será aberta à visitação dia 29 de janeiro, às 19h, com a presença das curadoras e dos artistas para um brinde. A mostra fica em cartaz até 28 de fevereiro, sempre de quarta a sábado das 14h às 19h, com entrada franca e livre para todos os públicos. Nesses dias e horários, visitantes contam com a presença de monitoras para apresentar a exposição.

 

A escolha dos artistas não é casual. Isabel Se Oh, nascida em Uruguaiana (RS) e filha de imigrantes coreanos, hoje radicada em Brasília, desenvolve uma pesquisa artística que explora narrativas de tempo e espaço internos, trabalhando sobretudo com a porcelana e a cerâmica. Seu trabalho orbita temas como espera, convalescença, resiliência e luto, resgatando memórias pessoais e coletivas de forma sensível e autobiográfica.

 

Rodrigo Machado, natural de Sobradinho (DF), traz para a cerâmica uma trajetória singular que conjuga sua atuação de quase 25 anos como assessor de imprensa cultural com uma prática artística intuitiva e investigativa. Suas formas orgânicas e exuberantes emergem de um diálogo sensível com o barro, recusando-se a limites técnicos e convidando a múltiplas interpretações a partir de uma poética do estranhamento. Juntos, eles elevam o barro à condição de pensamento e transformam a exposição em uma experiência que vai além da contemplação, propondo um campo de reflexão sobre existência e sensibilidade.

 

 

Descentralização como gesto político

 

Realizada na galeria A Pilastra, localizada em área periférica da cidade, a exposição assume claramente uma postura política de descentralização do acesso à arte. A curadoria defende que a produção contemporânea de qualidade deve ocupar diversos territórios, rompendo com a lógica de que a “arte de elite” pertence apenas a espaços tradicionais. A iniciativa reforça o compromisso de democratizar a fruição artística, entendendo-a como ferramenta de educação, crítica e ampliação do repertório simbólico para todos.

 

 

A cerâmica como linguagem conceitual

 

Questionando historicamente a separação entre artesanato e arte, “Corpo-coisa-planta-bicho” apresenta a cerâmica como suporte de discurso crítico e investigação poética. As obras expostas são esculturas que flertam com a instalação, nas quais o barro deixa de ser utilitário para se tornar linguagem. A materialidade – e seu processo lento, manual e imprevisível – é aqui entendida como um contraponto ao ritmo acelerado e digital da contemporaneidade, reconectando o espectador a noções de tempo, ancestralidade e presença.

 

 

Cenário futuro e impacto cultural

 

A exposição surge em um momento de crescente interesse pela cerâmica artística em Brasília, refletindo um movimento global de retomada de práticas manuais e processos reflexivos. Para a curadoria, a mostra não apenas legitima o barro como meio expressivo relevante no circuito contemporâneo, mas também fortalece a ideia de uma cena cultural mais plural e descentralizada. Espera-se que o visitante saia atravessado por perguntas sobre as animalidades e naturezas internas muitas vezes silenciadas no cotidiano.

 

O título “Corpo-coisa-planta-bicho” funciona como uma sequência aberta e não hierarquizada, espelhando a própria proposta das obras: borrar categorias e convidar a uma leitura sensorial e afetiva. A exposição permanece em cartaz na A Pilastra, reafirmando o poder da arte como espaço de encontro, questionamento e transformação do olhar.

 

 

Sobre a curadoria:

 

Gisele Lima é curadora, pesquisadora e diretora da galeria-escola A Pilastra. Formada em Teoria, Crítica e História da Arte pela Universidade de Brasília, investiga desde 2015 processos de criação e curadoria a partir de perspectivas dissidentes, com atenção às narrativas plurais, pedagogias experimentais e à arte como prática crítica e coletiva. À frente da Pilastra desde 2019, coordena programas de formação e residências artísticas, articulando exposições e experiências educativas em diálogo com territórios periféricos e saberes decoloniais. Foi idealizadora do projeto Sinestesia (2021–2024) e co-curadora de mostras como "Triangular – Arte deste Século" na Casa Niemeyer – UnB, eleita a melhor exposição coletiva institucional pela revista Select em 2019.

 

Camila Netto é curadora cuja prática se dedica a investigar as camadas sensíveis que emergem entre a intimidade, a morada e os territórios de pertencimento e êxodo. Sua atuação parte da compreensão da exposição como linguagem que revela tensões profundas entre rigidez e sutileza, brutalidade e delicadeza, força e fragilidade. Interessa-lhe a exposição enquanto gesto de acolhimento capaz de revelar silêncios, gestos íntimos e as marcas de quem transita entre lugares. Sua prática curatorial opera na intersecção entre o político e o sensível, pensando a poética do habitar e as formas pelas quais a arte pode tensionar, reconfigurar e ampliar percepções.

 

 

Sobre os artistas:

 

Isabel Se Oh nasceu em Uruguaiana (RS) e é filha de imigrantes coreanos, residindo atualmente em Brasília. Sua investigação artística dedica-se às narrativas de um tempo e espaço internos, operando sobretudo na materialidade da porcelana e da cerâmica. Seu trabalho circunda as temáticas da espera, da convalescença e da resiliência em processos de luto e ressignificação, tangenciando também tensões reprimidas e desejos não realizados. Como descendente de imigrantes sul-coreanos, seus tópicos de interesse perpassam a herança cultural multifacetada, a memória, a transferência e questões acerca do afeto, da sobrevivência, do cuidado e da tradição.

 

Rodrigo Machado, natural de Sobradinho (DF), constrói uma trajetória singular que entrelaça profissionalismo e expressão artística. Com quase 25 anos de atuação como assessor de imprensa especializado em cultura, desenvolveu um olhar aguçado e uma profunda conexão com o universo das artes. Foi na cerâmica, no entanto, que descobriu sua própria voz criativa. Sua produção emerge de maneira intuitiva, a partir do diálogo sensível com o material, recusando a limitação a uma única técnica e apresentando-se como um campo de experimentação plural. Sua inspiração alinha-se a uma poética do estranhamento, onde se encontram fascínio, desejo e um certo incômodo.

 

Serviço:

Corpo-coisa-planta-bicho

Local: A Pilastra

Endereço: Guará II - QE 40 Rua 09 Lote 8

Abertura: 29 de janeiro, quinta-feira, às 19h

Visitação: até 28 de fevereiro, sempre de quarta a sábado, das 14h às 19h

Entrada franca e livre para todos os públicos

 

 

Entrevista com Gisele Lima

 

Diante da raridade de mostras de cerâmica contemporânea em Brasília, qual a tese central ou o questionamento que esta exposição propõe ao público e ao circuito de arte da cidade?

 

A materialidade é o ponto de partida da exposição, mas não seu destino. Corpo-coisa-planta-bicho propõe uma reflexão sensível sobre as fronteiras — porosas e instáveis — entre corpo e objeto, entre o reino animal e o vegetal, entre aquilo que é natureza e aquilo que se torna cultura pelas mãos humanas.

 

A partir do barro, matéria ancestral e carregada de memória, a exposição convida o público a pensar as naturezas em que existimos: as que habitamos, as que criamos e aquelas que habitam dentro de nós. Em um circuito pouco habituado à cerâmica como linguagem da arte contemporânea, a mostra afirma o barro como pensamento, gesto e discurso crítico.

 

 

Por que escolher Isabel Se Oh e Rodrigo Machado? O que no trabalho de cada um cria um diálogo potente para esta exposição coletiva?

 

A escolha de Isabel Se Oh e Rodrigo Machado parte de uma aproximação estética e conceitual que se revela de maneira sutil, porém consistente para além da afinidade formal. O diálogo entre os dois artistas se estabelece no modo como cada um se relaciona com a matéria. Em suas pesquisas, o barro deixa de ser apenas suporte e se torna pensamento. Isabel opera a partir de uma poética do gesto, acessando camadas sensíveis ligadas ao corpo, à memória e ao inconsciente. Rodrigo, por sua vez, constrói formas orgânicas e exuberantes que tensionam a ideia de corpo e de natureza, sugerindo estados de transformação contínua.

 

O encontro desses dois percursos permite que a exposição seja pensada não apenas como um conjunto de obras, mas como uma experiência para o visitante — onde a materialidade da cerâmica sustenta um campo de reflexão sobre criação, existência e sensibilidade contemporânea.

 

 

Realizar uma exposição de arte contemporânea em um espaço periférico é também um ato político. De que forma a curadoria pretende descentralizar o acesso e desafiar a ideia de onde a “arte de elite” deve acontecer?

 

Democratizar o acesso à arte é um valor central da A Pilastra e, consequentemente, da curadoria assinada por mim e por Camila. Levar uma exposição de arte contemporânea para um espaço periférico é um posicionamento político claro: afirmar que a arte não pertence a um território exclusivo, nem a um público restrito.

 

Acreditamos que a arte é educação, provocação ao pensamento crítico, lazer e fruição sensível. Proporcionar exposições de qualidade fora dos espaços tradicionalmente elitizados contribui para a construção de repertório cultural, amplia horizontes simbólicos e reafirma o direito de todas as pessoas ao acesso à produção artística contemporânea.

 

 

A cerâmica tradicionalmente carrega heranças do artesanato e do utilitário. Como Isabel Se Oh e Rodrigo Machado subvertem essas tradições em suas obras, afirmando-a como uma linguagem da arte contemporânea?

 

Existe uma discussão histórica — e ainda muito presente — sobre a separação entre artesanato e arte com “A” maiúsculo, assim como entre arte popular, naïf e arte contemporânea. Partindo desse debate, é importante afirmar que, nesta exposição, não estamos diante de objetos utilitários e sim de esculturas, e que também se aproximam das ideias de instalação e do pensamento espacial.

 

No entanto, mais do que superar uma classificação formal, o que legitima essas obras como arte contemporânea é o pensamento poético e conceitual depositado no fazer. Isabel Se Oh e Rodrigo Machado materializam reflexão, pesquisa e discurso crítico por meio da cerâmica. Aqui, o barro não é suporte funcional, mas linguagem — pensamento que se torna forma.

 

 

Poderia detalhar um aspecto técnico ou conceitual específico no trabalho de cada artista que você, como curadora, considera fundamental para que o público compreenda a profundidade da proposta?

 

A escolha cromática de ambos os artistas é um elemento central da exposição. Os tons esbranquiçados, desaturados e por vezes opacos criam uma atmosfera comum, quase suspensa, que desloca a cerâmica de uma leitura tradicional e imediata.

 

No trabalho de Rodrigo Machado, destaco a técnica e a construção formal marcada por uma organicidade exuberante, que intriga o olhar e sugere corpos em transformação, volumes que parecem pulsar ou crescer. Já em Isabel Se Oh, a poética do gesto é fundamental: suas peças acessam camadas profundas do inconsciente, do identitário e do âmago da existência, evocando afetos, memórias e estados sensíveis difíceis de nomear, mas fáceis de sentir.

 

 

Esta exposição é um marco por seu recorte. Que caminhos ou possibilidades você vislumbra para o cenário da cerâmica artística em Brasília tendo esta mostra como reflexo?

 

A cerâmica artística tem ganhado espaço na cena contemporânea mundial e, localmente, já é possível perceber o surgimento de ateliês, coletivos e iniciativas dedicadas a essa linguagem. Entendo esse movimento como uma resposta direta aos tempos acelerados em que vivemos, marcados pela tecnologia, pela inteligência artificial e pela lógica da produtividade imediata.

 

A cerâmica exige tempo, escuta e presença. Ela não responde a comandos rápidos: depende da manualidade, do acaso, do fogo, da matéria e de uma complexa equação de fatores até se concluir. Nesse sentido, a cerâmica artística opera como um gesto contracorrente, um respiro diante de um modelo social que nos adoece. Ela reconecta o presente à terra, à natureza, ao passado e à ancestralidade que esse fazer carrega.

 

 

Qual é a principal impressão ou reflexão que você espera que o visitante leve para casa após percorrer esta exposição?

 

Espero que o visitante saia da exposição atravessado por uma pergunta: quais animalidades, naturezas e universos internos temos deixado de acessar dentro de nós mesmos?

 

Mais do que respostas, a exposição propõe um estado de escuta e de reconhecimento dessas camadas sensíveis que muitas vezes silenciamos no cotidiano.

 

 

Qual você acredita que seja o significado ou a importância desta mostra para a cena cultural brasiliense?

 

Corpo-coisa-planta-bicho afirma a cerâmica como linguagem legítima da arte contemporânea em Brasília, ampliando o repertório do circuito local e tensionando hierarquias ainda presentes na cena cultural.

 

Além disso, a exposição fortalece a ideia de que produções conceituais, experimentais e potentes podem — e devem — ocupar espaços diversos da cidade, contribuindo para uma cena mais plural, descentralizada e conectada com as urgências do nosso tempo.

 

 

Que diálogo se estabelece entre o título da exposição e as obras, e como ele convida o público a construir suas reflexões ao longo desse percurso?

 

O título Corpo-coisa-planta-bicho funciona como uma sequência aberta, sem hierarquia, que sugere estados de existência em constante trânsito. Ele reflete diretamente o universo das obras, que borram fronteiras entre o humano, o objeto, o vegetal e o animal.

 

Ao percorrer a exposição, o público é convidado a construir suas próprias conexões entre essas categorias, percebendo como elas se atravessam, se contaminam e coexistem. O título não oferece uma chave de leitura fechada, mas um convite à experiência — sensorial, afetiva e reflexiva.


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