“Fiota e o Coco Daiá”: filme realizado na comunidade Vão de Almas mergulha nos saberes ancestrais de Fiota Kalunga no coração do Cerrado
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Entre serras e vãos do Cerrado goiano, resiste o Território Kalunga, reconhecido nacionalmente como o maior Quilombo em extensão do Brasil. Em meio às mais de 39 comunidades que formam esse território ancestral, está a comunidade Kalunga Vão de Almas, localizada no município de Cavalcante (GO), onde memórias e saberes seguem sendo compartilhados através da oralidade e do fortalecimento comunitário.
É nessa comunidade que nasceu e cresceu Deuzami Francisco da Conceição, carinhosamente conhecida como Fiota Kalunga. Agricultora familiar, extrativista, lavradora, artesã, professora da dança Sussa e integrante das Mães do Óleo Kalunga (iniciativa reconhecida por unir produtos de qualidade e saberes ancestrais), Fiota carrega e compartilha conhecimentos herdados de gerações de mulheres do território.
Filha de raizeira, neta de parteira, aprendeu muito com Dona Benedita, sua mãe, e hoje segue sendo uma das grandes referências do Vão de Almas pelos saberes ligados à floresta e aos modos de vida que florescem na comunidade geração após geração.
É através desses caminhos que nasce “Fiota e o Coco Daiá”, curta-documentário dirigido por Alciléia Torres e Natália Vitral, que acompanha desde a coleta no mato até a extração manual do óleo de coco daiá, também conhecido como indaía ou babaçu em outras regiões do Brasil. O filme revela conhecimentos tradicionais construídos através da confluência com o Cerrado, dos ensinamentos da roça e da terra, acompanhando os caminhos de Fiota Kalunga, cuja trajetória também carrega saberes e fazeres de outras mulheres quilombolas.
O curta estreia no próximo sábado, 30 de maio, durante o 9º Encontro Raízes, na Vila de São Jorge, território que reúne raizeiros, parteiras, benzedeiras e pajés na Chapada dos Veadeiros, espaço onde Fiota compartilha, há muitos anos, seus conhecimentos. Assim como o Raízes, o filme também nasce dessa força coletiva, acompanhando os caminhos de uma mulher quilombola ligada ao território, a autonomia e aos modos de vida do Cerrado. A segunda exibição acontece no dia 09 de junho, na Praça da Primavera, em Cavalcante (GO).
Ao longo do filme, Fiota compartilha vivências atravessadas pelo trabalho na roça, pela criação dos filhos e pelos ensinamentos deixados pelas mulheres mais velhas da família e por aqueles que vieram antes, revelando formas de vida construídas através da coletividade e da relação profunda com o Quilombo Kalunga.
“É bom demais receber tanta gente disposta na minha comunidade, todos querendo fazer esses trabalhos aqui na minha casa, aqui no meu território, pra mostrar isso pro Brasil todo. Foi daqui que veio nossa sobrevivência, nossa força e nossa energia. Agora quem não conhece vai saber como é dificultoso ir até o mato, quebrar o coco, socar no pilão até chegar na casa de cada pessoa. Eu tô feliz, sinto feliz e abraçada por todo mundo. Deus me deu os saberes da floresta e assim eu tô seguindo meus passos.”, expressa Fiota.
O documentário também marca o encontro entre diferentes experiências construídas na Chapada dos Veadeiros. Realizado pelo Coletivo Oyá, iniciativa de cinema independente que há mais de 10 anos atua na região através do audiovisual e da cultura, “Fiota e o Coco Daiá” também nasce da parceria com a Rede Kalunga Comunicações, coletivo de comunicação quilombola do Território Kalunga. Construída ao longo dos últimos anos, a união entre os dois grupos fortalece processos colaborativos conduzidos majoritariamente por mulheres, aproximando território, comunicação comunitária e audiovisual na construção coletiva de registros que permanecem no território.
Para Alciléia Torres, diretora do filme, comunicadora quilombola e Coordenadora de Cultura da Rede Kalunga Comunicações, nascida e criada na comunidade Vão de Almas, o filme representa a possibilidade de construir narrativas sobre o próprio território a partir de quem vive essas memórias diariamente. “Pra mim, dirigir esse filme é a realização de sonhos. Sonhos que não são somente meus, mas sonhos coletivos, que atravessam gerações. É algo que aquece muito o meu coração, principalmente porque eu sou apaixonada pela narração de histórias através do audiovisual.”, ressalta.
A jovem de 21 anos, que também atua na produção de conteúdos dentro da comunidade e dirige seu segundo filme ao lado de outra mulher, acredita que registrar essas memórias é também uma forma de continuidade cultural. “Poder registrar essa nossa memória coletiva para que as futuras gerações também possam vivenciar esses saberes e fazeres através do filme é muito emocionante. E poder participar da contação dessa história pelo olhar de tia Fiota mexe muito comigo, porque a narrativa dela também fala por tantas outras mulheres Kalunga. Nesse filme, tia Fiota carrega as histórias, a força e a resiliência de muitas mulheres do nosso território.”
Ao seu lado, a diretora Natália Vitral, integrante do Coletivo Oyá, acompanha Dona Fiota Kalunga há muitos anos e compartilha, há bastante tempo, o desejo de transformar essa relação em filme. “Eu conheço a Fiota há 11 anos e fiquei encantada com ela desde a primeira vez que a vi. Sempre soube o quanto seria importante não só registrar, mas ter a oportunidade de conviver, aprender e trocar com uma mestra como ela”, conta Natália.
A diretora explica que a relação do Coletivo Oyá com mestres e mestras da Chapada dos Veadeiros atravessa toda a trajetória do grupo, que há mais de uma década desenvolve trabalhos ligados ao audiovisual, à cultura e às relações com o Cerrado. “Tudo começou com Seu Dedé, uma figura muito importante pra gente dentro da Vila de São Jorge. Foi através dele que começamos a registrar caminhadas no mato, ouvindo sobre as plantas do Cerrado, os remédios e os conhecimentos que seguem vivos até hoje dentro do nosso trabalho e das nossas vidas.”
Segundo Natália, o contato com mestres populares como Seu Dedé, Dona Flor, Dona Cecília e Fiota Kalunga ajudou a construir não apenas a identidade artística do grupo, mas também uma relação mais profunda com o território. A diretora reforça que o audiovisual aparece como uma ferramenta de continuidade e valorização dessas histórias. “A nossa forma de preservar e valorizar isso é através do audiovisual. É a ferramenta que a gente encontrou pra registrar e também devolver esse conhecimento pra comunidade.”
Como contrapartida do projeto, o filme também promoveu uma oficina de audiovisual dentro da comunidade, ministrada por Natália Vitral, Caio Souza e Caio Martins, envolvendo crianças, adolescentes e moradores em práticas de fotografia, som, entrevista e registro audiovisual. Durante o processo, os próprios participantes entrevistaram uns aos outros, compartilhando memórias, vivências e diferentes olhares sobre o território.
Jovens da comunidade Vão de Almas também participaram da construção do documentário, fortalecendo o intercâmbio entre gerações e aproximando moradores das linguagens do cinema e da comunicação comunitária.
Maria Ilza acompanhou a produção local das atividades, enquanto Francileia da Cunha Santos e Lucivaldo Pereira estiveram presentes nas gravações do filme, contribuindo em diferentes funções do audiovisual. Lucivaldo participou dos registros fotográficos de making of e bastidores, e Francileia atuou como microfonista durante parte das filmagens. “Foi algo novo pra mim e eu gostei muito de aprender mais sobre como funciona essa parte de ouvir, gravar e cuidar dos sons durante as filmagens. Fazer parte disso tudo me deixou muito feliz e orgulhosa, porque de alguma forma eu também estava ajudando a registrar e valorizar a nossa comunidade e o nosso território”, contou Francileia da Cunha Santos, de 16 anos.
Mais do que participações pontuais, a presença dos jovens também reforça a importância de construir processos culturais junto à própria comunidade, permitindo que o audiovisual circule como ferramenta de troca, aprendizagem e continuidade dentro do território.
A troca entre diferentes territórios da Chapada dos Veadeiros também atravessa a construção do filme. Grande parte da equipe visitou a comunidade Kalunga Vão de Almas pela primeira vez, mesmo vivendo na região da Chapada, como conta a jovem Graziela Zaira Araújo Paz, de 21 anos, moradora da Vila de São Jorge, localizada a aproximadamente 140 km da comunidade, cerca de 4h de viagem. “Foi a minha primeira vez no Vão de Almas e, pra mim, estar naquele lugar foi como atravessar túneis da história. Conheci riquezas que vão muito além da cultura: pessoas, vivências e conhecimentos que transformaram a forma como eu enxergava a realidade até então.”
O documentário também aproximou pessoas de diferentes territórios do Brasil. Entre elas está Ione Maria, diretora de arte e artista visual nascida na comunidade Vila Albertina, Zona Norte de São Paulo, que chegou ao Vão de Almas através da construção coletiva do filme. Para ela, a experiência no quilombo foi marcada pelo encontro, acolhimento vivido e trocas dentro da comunidade.
“Estar na comunidade do Vão de Almas realizando um filme foi, acima de tudo, um encontro com um propósito bonito. A harmonia do grupo, junto com o acolhimento da família da Fiota, abriu espaço para o encanto das intenções de boas histórias. Foi incrível conhecer a grandeza e os conhecimentos da Fiota. Levo comigo bonitas lembranças e um orgulho imenso de ter feito parte desse projeto.”
Entre câmeras, conversas compartilhadas e especialmente os aprendizados ao longo dos dias de gravação, “Fiota e o Coco Daiá” também se constrói através da diversidade de pessoas que passaram pelo território e deixaram um pouco de si nesse encontro, que será celebrado de forma especial na estreia do filme neste sábado, dia 30 de maio, durante o 9º Encontro Raízes, na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. O curta também será exibido no dia 09 de junho, na Praça da Primavera, em Cavalcante (GO).
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“Este projeto foi contemplado pelo Edital de Audiovisual nº 03/2024, realizado pela Secretaria de Estado da Cultura de Goiás através da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), operacionalizada pelo Ministério da Cultura e Governo Federal.”







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